sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Observar, compreender, para melhor actuar.

Visita ao Residoso

Dia 7, ou a mítica mensagem bíblica...Sete, setenta vezes sete...ou sete vezes nada...

Preparamos-nos para partilhar um tempo, o tempo especial daqueles que consideramos, especiais, diferentes. Tempo que é comum, porque é registado, simultâneo ao nosso, no " maldito relógio". Tempo que escapa à racionalidade (normativa) como se pretendesse, na sua desintegração, contrariar, recusar, o sentido comum, no aleatório e imponderável de cada momento, no segredo de cada ser. Pretendemos compreender a incógnita que se esconde no "non sens". Descodificar, integrar, outras realidades, aquilo que julgamos ser o Universo dos vazios, (as demências ou a ausência de lógica). Vamos experienciar outras vivências... conhecer outros, em outros espaços e em contextos que não conseguimos facilmente decifrar. Outros EUS, outras percepções das realidades.

Pretendemos procurar a história, o sentido da vida que somos tentados a julgar "sem sentido", face aos nossos sentidos. A sua capacidade ou não, de percepcionarem o real. Vamos partir à descoberta de um mundo que nos escapa, nos desafia e inquieta.... Tentar perceber o que distingue o exótico, da norma. Sentir o que constituirá o seu Universo, a sua interpretação do mundo. Lançar-lhe um olhar de humanidade, face a uma humanidade quase irreconhecível.

Vamos realizar "trabalho de campo". Fazer observação simples, participante ou não participante.

"A observação participante, que muitas vezes é também designada por trabalho de campo, caracteriza-se pela “inserção do observador no grupo observado. Se o investigador apenas se integra no grupo a partir do momento em que se inicia o processo de investigação, falamos de observação-participação. É a situação do etnólogo que vai viver uns tempos com a "tribo" que vai estudar.
Se, pelo contrário, o observador faz parte integrante de um grupo e aproveita essa situação para o observar, estamos numa situação de participação-observação. É o caso do professor de Sociologia que investiga na escola onde exerce a docência. [Ou do crente religioso que aproveita o seu convívio com outros crentes e a sua participação em actividades religiosas para estudar o fenómeno religioso.]
A observação-participação tanto pode ser uma participação distanciada e ligeira (caso de uma reportagem sobre uma conferência ou sobre outra qualquer prática social; ou da observação presencial de aulas), como uma participação mais profunda e mais integrada (como é o caso dos etnólogos que, ao estudarem sociedades primitivas, nelas se integram durante meses). Na participação-observação há a dificuldade acrescida da pertença íntima ao grupo social condicionar bastante a objectividade necessária ao processo investigativo.”
José Vargas, Sociologia, Porto Editora, 2002, pp. 119-120.

Vamos conhecer, com os nossos mecanismos racionais o que consideramos ser a irracionalidade e sentir com os nossos afectos, para podermos actuar melhor.

C.C.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

A Relatividade do Tempo

Ao pesquisar informação sobre o Tempo deparei-me com um pensamento de Rúben Alves com o qual me identifico e que me fez reflectir sobre este tema: “O tempo pode ser medido com as batidas do relógio ou medido com as batidas do coração” .
Diariamente, somos bombardeados com diversas expressões sobre o tempo: “não tenho tempo”, “os dias deviam ter mais de 24h”e ”já passou uma hora e parece que só estamos juntos há 5 minutos”, que nos dão uma noção da subjectividade do tempo e outras como “ó tempo volta para trás” e “no meu tempo era tudo muito diferente e melhor” que revelam um valor de tempo como sinónimo de saudade, isto é, que atribuem uma significação ao tempo.
Foi com base nestas premissas que decidi elaborar uma reflexão acerca de como o tempo invariavelmente marca as nossas vidas e do modo como escolhemos viver esse tempo.
A noção de temporalidade do tempo (passo o pleonasmo) tem muito que se lhe diga.
Considero mesmo que, em traços gerais, o tempo pode ser vivido de duas formas distintas: o tempo como marca firme de finitude da vida humana, do envelhecimento humano e o tempo do amor, do encontro, o tempo que vem dar significação ao viver.
O primeiro, tal como Ruben Alves refere, “pode ser medido com as batidas do relógio”. É o tempo do stress, da correria, da própria luta inglória contra o tempo em que constantemente nos sentimos vítimas do tempo e o sentimos como um inimigo pois andamos sempre atrasados. É nesta dimensão do tempo que vivemos a maior parte das horas do nosso dia-a-dia, pelo facto de estarmos numa sociedade exigente e com tantos apelos aos quais se torna difícil resistir.
Ninguém consegue controlar este tic-tac mas podemos e devemos escolher a forma como queremos vivenciar este tempo que uma vez acabado não pode ser revivido.
Facilmente esquecemos que a temporalidade é constitutiva da existência humana e isto pode originar arrependimentos, amarguras e desgostos.
Qual é então o segredo desta valorização do tempo se as horas, os minutos e os segundos são rigorosamente iguais para nós que os percebemos, umas vezes como rápidos demais e outras como demasiado demorados?
É a esta pergunta que os idosos, por excelência, nos conseguem responder pois a sua vida já sofreu muitas mutações e a experiência que adquiriram ao longo dos anos já lhes permitiu reflectir amplamente sobre o assunto.
É curioso ver que todos somos filhos do tempo, que vivemos controlados pelo relógio que teimamos em manter no pulso para melhor gerirmos o nosso tempo mas que para esta faixa etária o mesmo adquiriu um sabor especial.
É comum vermos um idoso referir expressões como “vou dar-te este presente porque para o ano posso já não estar cá”; “digo sempre à minha família o quanto a amo pois não sei se amanhã cá estarei para o poder fazer”, entre outras que nos fazem compreender que existe por parte dele um grande respeito pelo tempo.
Nós vivemos a vida pensando que seremos imortais, pensamos na morte mas imaginamo-la como algo distante e impessoal mas talvez essa valorização do tempo seja uma das muitas coisas que podemos aprender com os idosos.
Estes já adquiriram a vivência da sabedoria de perder tempo com o que é essencial na vida, já conseguiram dar um sentido ao tempo mas já não têm o tempo que desejariam para poder usufruir desta sabedoria.
Saint Exupéry, no seu livro “O Principezinho”, fala-nos disso mesmo quando a raposa se dirige ao pequeno príncipe e lhe diz: “foi o tempo que perdeste com a tua rosa que a tornou tão importante” e incita-nos assim a descobrir o segredo do que é realmente importante na vida.
Temos portanto a fundamental tarefa de amar a vida marcada pelo tempo e de a aceitar e acolher seja aos 3, aos 18, aos 35 ou aos 80 ou mais anos de idade.
O tempo do encontro torna-se terapêutico quando optamos por vivenciá-lo como o tempo que abraça a vida, como um caso de amor, de uma experiência profunda de paz, de reencontro e de reconciliação consigo mesmo, com os outros e com o transcendente. Cabe a cada um de nós, como profissionais da saúde, fazer a diferença, humanizando e sendo humanizados. Assim agindo tornaremo-nos mestres do tempo pois, mais do que acrescentar anos à vida, estaremos acrescentando vida aos anos, ou seja, estaremos a viver continuamente em estado de graça.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

O tempo...

Ah!... sempre o tempo que se esvai e esfuma. Que demora a passar sobretudo quando se é jovem e se quer ser grande. Tempo -eternidade- quando se busca e prossegue um sonho que, por mais que se anseie, tarda a concretizar-se. Tempo que faz doer na hora da desilusão... nesse vazio do Ser. Tempo que se retoma na paixão efémera mas estonteante, grito de absoluto, que se volatiliza. Tempo que queima, esgota, sulca a cartografia de cada existência, deixando registos de memórias, sonhos por cumprir...promessas de eternidade. Tempo que se prolonga quando já pouco faz sentido....Tempo que se expande no sentido d infinito, quando se ultraassam a fronteiras do efémero. Tempo de SER procurando não SER, em transcendências de além....
Tempo, tempo o meu e o vosso que partilhamos em construções comuns que sempre se descontróem mas reedificam marcadas pelo "maldito relógio". Ah... são 17 Horas e 30...já são horas de acabar.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Da Terceira Idade...

"Creio que se pode traçar uma fronteira muito precisa entre a juventude e a velhice. A juventude acaba quando termina o egoísmo, a velhice começa com a vida para os outros. Ou seja: os jovens têm muito prazer e muita dor com as suas vidas, porque eles a vivem só para eles. Por isso todos os desejos e quedas são importantes, todas as alegrias e dores são vividas plenamente, e alguns, quando não vêem os seus desejos cumpridos, desperdiçam toda uma vida. Isso é a juventude. Mas para a maior parte das pessoas vem o tempo em que tudo se modifica, em que vivem mais para os outros, não por virtude, mas porque é assim. A maior parte constitui família. Pensa-se menos em nós próprios e nos nossos desejos quando se tem filhos. Outros perdem o egoísmo num escritório, na política, na arte ou na ciência. A juventude quer brincar, os adultos trabalhar.

Não há quem se case para ter filhos, mas quando chegam, modificamo-nos, e acabamos por perceber que tudo aconteceu por eles. Da mesma forma, a juventude gosta de falar na morte, mas nunca pensa nela; com os velhos acontece o contrário. Os jovens acreditam ser eternos e centram todos os desejos e pensamentos sobre si próprios. Os velhos já perceberam que o fim vai chegar e que tudo o que se tem e se faz para si próprio acaba por cair num buraco e de nada valeu. Para isso necessita de uma outra eternidade e de acreditar que não trabalhou apenas para os vermes. Por isso existe a mulher e os filhos, o negócio ou o escritório e a pátria, para que se tenha a noção de que o esforço diário e as calamidades têm um sentido. Assim, uma pessoa é mais feliz quando vive para mais alguém, e não para si só. Mas os velhos não devem fazer disso um heroísmo, que não é. Do mais irrequieto jovem resulta o melhor dos velhos, o que não é verdade para aqueles que já na escola agiam como velhos..."
Hermann Hesse, in "Gertrud"