sábado, 25 de julho de 2009

Maria da Conceição Serrenho Couvaneiro (phd)

Psicologia social

Instituto Piaget- Almada/Portugal

Provérbios Mitos e Práxis

Este artigo pretende evidenciar a importância dos provérbios na formação e na transmissão de valores. Entender o modo como constituem marcas de um património que se transmite de geração em geração, geralmente pela via oral e popular. Compreender o seu impacto, enquanto transmissores de crenças e ideais que norteiam as sociedades, e se constituiem como marcos de uma filosofia, transmitida de forma continuada, às gerações vindouras. Reflectir sobre a sua função psicopedagógica, como marcos ancestrais de cultura, que contribui para a preservação e a manutenção da moral, dos costumes e da tradição, para que a humanidade prossiga a sua saga, dentro do que é considerado o seu traço identitário.

Abordando os constructos da psicologia procurar-se-à compreender a função dos provérbios na vinculcação da sabedoria popular, através da aprendizagem social. Do modo como são transmissores de saberes e convicções, de expressão universal, como geram comportamentos próprios de uma cultura, assente em normas estratificadoras. A categorização social e o poder estão presentes quando são evidenciados aspectos, políticos e ou religiosos, por vezes eivados de preconceitos e estereotipia. De forma subtil e subjectiva exaltam ou penalizam os grupos sociais minoritários e ou fragilizados, nomeadamente os idosos, as mulheres. Ao contrário enaltecem as virtudes consideradas relevantes ao ideário social que defendem. Como estes resultam da expressão de um inconsciente colectivo (Durkheim 1893), e as suas formas subjectivas de afirmação, enquanto representações sociais (Moscovici 2007). Estas são uma forma de abordagem explicativa dos processos de “imprinting”. Partem do conhecimento do senso comum e, pela cognição social, constituem o “attachment” cultural entre passado e futuro. Uma forma de leitura simplificada, das realidades quotidianas.

Através da ligação entre mitos e praxis observam-se as diferenças que os provérbios apresentam nas sociedades tradicionais onde a sua expressão é superior à das sociedades modernas. Esta é uma abordagem assente em experiências pessoais e fundadas na observação. Conforme o que se relata a seguir.

Um mito, uma construção de práxis

Desde cedo fui ouvindo, a voz sábia da minha mãe e dos mais velhos, transmitir mensagens que me eram agradáveis de ouvir, devido ao tom tão convincente e afectivo com que eram vinculadas e à confiança que inspiravam. A par de outras máximas, hisórias e conselhos que com o tempo adquiriam particular significado, ia ancorando as minhas vivências inscritas neste quadro de referências, coerentemente transmitidas. Fui assim esculpindo muitos dos meus conceitos, acerca da vida, a cartografia das minhas convicções, em constante afirmação e reconstrução.

Expressões como " não faças aos outros o que não gostarias que te fizessem a ti", “faz bem, sem olhar a quem”, “ Diz-me com quem andas dir-te-ei quem és” ou ...“ “mais vale só que mal acompanhado” norteavamo meu caminhar, constituindo a dado momento, verdades inqestionáveis. Intuia, com elas, uma ética relacionl aassente naresponsabilidade e procurava estabelecer uma atitude de empatia com os outros, facilitadora da comunicação, da cooperação e da socialização, ao mesmo tempo que formava uma moral que se revelava um tanto coersiva. Só mais tarde percebi que, a função de tão curtas histórias, era a de constituirem máximas de moral e de preceitos a que havia de dar cumprimento, para viver bem e ser feliz.

Os provérbios vinculam técnicas simbólicas de sabedoria de adesão inquestionável e incisiva. Utilizam o ritmo, a metáfora e a aliteração, o conselho e a regra. São o saber consolidado, sem a necessária demonstração ou a imposição de passar pelo ónus da prova pois são a apropriação subtil da normatividade, vinculada pela via subjectiva. Aconselham procedimento e indicam códigos de conduta viver em sociedade e para vencer na vida. São imperativos mesmo não sendo dogmáticos. De forma irónica, sarcástica mesmo, ou directa , linear e consensual, encerram conceitos que, no seu discurso breve, trasmitem lições de vida. Surgem como a monitoragem do caminho e o esteio para as dúvidas e as incertezas. Constituem-se verdades ”fundantes” a que se recorre mas que, com o tempo, se refazem, mesmo que, as primeiras percepções, nunca deixem de ficar sinalizadas. São mecanismos norteadores da moral e da ética processual, que apelam ao esforço compensado ou, na sua ausência, à punição tal como se pode constacar nos exemplos que se seguem: “Madruga e verás, trabalha e terás”; “quem não cansa não alcança”; “quem não trabuca não manduca”; “ o prometido é devido” ou ainda “quem boa cama fizer nela se deitará” O cunho sinalizador da valorização do trabalho, do dever e da responsabilidade, surgem inequivocamente nos provérbios, a reforçar outras mensagens de sentido idêntico, relativas ao modelo de vida, veiculadas nos cenários educativos. O convite à participação empenhada, para a justa apropriação dos recursos e gestão dos meios, a consciência do papel activo que a cada um cabe dentro da função delineada em projectos de vida inscrevem-se, pr esta via, no imaginário pessoal . Definem a condição de utente usuário activo e transformador, o papel de actor, num processo de desenvolvimento empenhado e no sentido da repartição equitativa de recurso. Antes de qualquer tratado sócio económico e de direito, antes que se pudessem teorizar, os princípios da justiça, definidos entre outros, por John Rawls, surgem eivadas de sentido, no anúncio proverbial , as máximas de solidariedade, propícias a uma vida mais partilhada, ou ao contrário a alertar para os benefícios da defesa individual; mas a reafirmar a consciência de ser usuário e contrariar a usura.

Os provérbios, expressão do senso comum, permanecem praticamente imutáveis ao logo dos tempos, ainda que assumam diferentes significados e performances e outros se hes vão acrescentando, consoante as culturas de que são oriundos ou em confronto com novos paradigmas.

Os modelos cognitivos, aprofundados por Beauvois (1984), Jonte (2008) e Monteil (1999), relativo aos processos ideológicos e os processos sociais de (Doise e Mugny 2002), são elaborados, sob o ponto de vista cognitivo, à medida que recolhemos fragmentos de informação extraímos conclusões e a partir delas e tentamos um traçado coerente, no itinerário da vida. O que se apresenta como senso comum pode ser, então, observado à luz dos processos cognitivos e emocionais, que lhes estão subjacentes.

Os provérbios, no seu carácter metafórico, inculcam ideologia. Não são inocentes do ponto de vista ideológico, filosófico, políticoe religioso. Vejamos as expressões como as que seguem :

“Quem se humilha será exaltado, quem se exalta será humilhado, ou, “é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha de que um rico entrar no reino dos céus”. Na primeira citação está-se perante a dedução de que, um juízo exacerbado do valor pessoal, poderá impedir o desenvolvimento de cada, do seu SELF em função dos demais, por isso é aconselhado anulação, o silenciamento de si, para obter uma glória maior , por ventura a recompensa celeste. A humildade pode assumir o caracter de submisão, o apagamento de si, a anulação, o que pode ser considerada uma outra forma de orgulho. Na segunda citação observa-se um desafio ao conformismo, a regeição do sentimento da propriedade como algo de bom já que não tem lugar nos desígnios divinos. Tais máximas, fundamentadas em ideologias, de pendor religiosas judaico cristão, subvertem os conceitos da assunção de SI, como valor próprio, pelo reforço da humildade (apagamento) como virtude, que se pode vir a traduzir em falsas modéstias, dependência e de sujeição. Conduzem à aceitação/resignação, tão do agrado de regimes políticos autoritários. Assentam em pressupostos de que sofrer para se obter um outro bem, perpétuo e transcendental, justifica uma vida desditosa. Pode mesmo pressupor aceitar a injustiça em nome das bem-venturanças, “ bem aventurados os mansos…pois deles é o reino dos céus”.”Bem aventurados os pacíficos porque possuirão a terra” Tal pode pressupor abdicar, pacificamente, da condição humana permitindo que o “destino de cada um seja da responsabilidade de uma qualquer divindade, política ou celestial”. Do mesmo modo que os proverbios estas máximas contêm poder mítico e transcendental, que Max Weber (2004) trata e, mais proximamente (em Portugal), Antero de Quental (1871) alude na sua obra “causa da decadência dos povos peninsulares” pode constituir um poderoso narcótico para debelar algumas angústias do presente parecendo superar (momentaneamente) os sofrimentos. O poder, assim manifestado, minimiza o direito e adultera, o sentimento de si como valor, atribuição causal, (Heider, 1958) da supremacia de um destino ou poder transcendental. Induz atitudes de heteronomia, assumindo o “locus de controlo externo” (Rotter, 1958), um papel determinante com a demissão das responsabilidades que lhe competem. Comprometem os processos de autonomia e liberdade, favorecem o livre arbítrio, impedindo que cada um tome em suas mãos a condução do seu destino, na luta pelo direito ao bem-estar.

“Filho és pai serás” vincula o sentido de uma moral de compromisso que funciona como constrangimento aos sentimentos de alienação da responsabilidades para com os mais velhos. Revelam ainda situações de contradição entre o social e o individual, entre a partilha e o egoísmo contrários a uma vivência solidária. Ao respeito pelos que foram os autores da nossa vida. A sacralidade desta pertença é evidenciada pela “ameaça, presente na segunda parte do provérbio…….” Como fizeres assim acharas…”. Anuncia-se a passagem de uma moral heterónima a uma moral autónoma (Piaget, 1932) e Kolbherg ( 1981).

Os princípios da acção são assim determinados por conceitos fundamentais que apontam inevitavelmente para atitudes e comportamentos norteados por um inconsciente colectivo que define conteúdos, e arquétipos, reproduz ou aniquila imagos, numa espécie de ética da criatividade da cooperação e solidariedade tal como é anunciada por Desroche na sua obra “ as três éticas e que se transforma em convicções, associando mesmo que imperceptivelmente, conceitos de rito, ao modos fazendo, na passagem à praxis, tal como é anunciada por Marx. Transforma-se em pano de fundo e cenário vivencial, das diferentes gerações. Inscrevem padrões culturais do imaginário colectivo (Durkheim ) que, só muito lentamente, se vai transformando.

Os provérbios inserem-se numa mística em que o simbólico marca o real, dando-lhe um carácter de sagrado manifestando-se pelo inculcar de uma mensagem que suscita a passagem dos valores a inquestionáveis verdades, quase de natureza metafísica, sobretudo ao nível dos grupos sociais comunitários, pela premonição e algum temor. A sua transmissão assenta na tradição e um certo culto popular de carácter subjectivo reutilizando os símbolos e provocando inevitáveis adesões. “ nunca digas, desta água não beberei”; “a justiça tarda mas não falta”; “quem semeia ventos colhe tempestades”.

O real e o simbólico entrecruzam-se numa miscelânea de sentidos, onde os contraditórios e os opostos tomam lugar. Transportam-se para o quotidiano em rituais agregadores em que as manifestações de sentires se transformam em princípios de acção e ideais comuns.

O conhecimento enquanto ciência avalia, modifica, retêm ou abandona modelos se não forem capazes de resistir às provas empíricas. Tende a explicar os comportamentos das pessoas. O senso comum procede e influência através da justeza das mensagens, dos aspectos afectivos de que as mesmas são portadoras, da repetição e encadeamento dos sentidos que as vinculam, da redundância. Assumindo o carácter de conselho, quase sagrado, não necessitam da prova pois são assimilados através do que parece obvio e funciona pela redundância.

A impregnação social exerce o seu efeito, virtualmente, sobre os nossos pensamentos, sentimentos e condutas. Leva-nos a moldar as nossas percepções. As mensagens persuasivas (destinadas a criar, modificar ou reforçar atitudes) assentam nas emoções que franqueiam a porta à construção da realidade, à racionalidade ( Berger e Luckman, 2004).

A impregnação social vai construindo um território de representações que resultam no acto de transformar em categorias ou objectos de pensamento, que reproduzem imagens mentais mesmo que ajustem e reformulem concepções anteriores. Com origem em Hegel as representações evidenciam a dinâmica do processo, com construções mentais activas que balançam entre a propriedade dos objectos e a sua imagem, sempre revestida de múltiplas significações, passando do carácter intuitivo das imagens transformando-as em pensamento. De múltiplos significados e com a “contaminação ou leitura enviesada” que os diferentes sentires e expressões lhes vão acrescentando, assim se vão tecendo os territórios da nossas convicções mais profundas, baseadas em fenómenos do senso comum. Com base em E. DurKheim, Moscovici (2007) retoma esta mesma problemática das representações sociais como modalidades de conhecimento prático orientadas por e para a comunicação a compreensão e o controlo do meio ambiente determinados por processos cognitivos geralmente assumidos e por processos funcionais socialmente estabelecidos. Podem representar interpretação, não apenas conhecimento, mas com a marca do sentir e o filtro dos olhares. Não é pois, apenas o conhecimento que interessa, mas as suas implicações práticas. O conhecimento através representações sociais é uma via, a primeira. Neta estão contidas, para interpretar a realidade, a icnografia, literatura, canções, provérbios, mitos,…. (Spink, M,J.200,1993)

Resistindo à prova dos factos vão se formando os e preconceitos e os estereótipos que vão surgem através de alguns processos degradativos de algumas experiências enviesadas ou menos consentâneas com as leituras de uma determinada realidade. Pode definir-se estereotipo “como crenças ou representações rígidas e simplificadas da realidade, geralmente partilhadas por um grupo mais ou menos alargado (eventualmente os membros de uma sociedade inteira) relativamente a instituições pessoas ou grupos. O estereótipo releva muitas vezes do preconceito. É caricatural e unificador, sendo os traços atribuídos isolados de um complexo de traços e sendo ignoradas as diferenças e cambiantes, ( Dortier, J-F., 2006) .

Os caracteres étnicos, raciais, de género e de velhice são exemplos de estereótipos marcados pelos preconceitos. Tratando-se de condicionamentos aos estimulo vão naturalmente repercutir-se nas respostas a dar e na justificação do preconceito.

Provérbios e estereótipos relativos aos idosos

A Depreciação por comparação entre a juventude e a velhice surge nos provérbios estabelecendo a analogia entre as diferentes virtualidades ou competências reconhecidas nos diversos grupos etários. Não será de estranhar que, numa sociedade que tem como fulcro a funcionalidade e o interesse utilitário, que os velhos surjam muito desvalorizados enquanto que os jovens são considerados mais valia social, inquestionável. Os provérbios populares evidenciam-no como a seguir se pode ver.

“Mais quero o velho que me ame do que o moço que me assombre”.

“Amor e sabedoria fazem rara companhia”.

Mas o preconceito surge de forma mais eversiva quando se trata da manifestação dos afectos. Parece que a sociedade considera vedada aos idosos a possibilidade de manifestar os seus afectos, de serem portadores de emoções. A sexualidade, presente ao longo de toda a vida humana e a manifestação sensível dos afectos, será prerrogativa dos mais novos. A representação social da velhice considera que sabedoria ou estado maduro da vida adulta (Erikson, 1997) – não consentânea com o amor e suas manifestações sensoriais.

Vejamos relativamente ao amor os seguintes provérbios: “ velho enamorado cedo enterrado”, “0 amor no velho traz culpa, mas no mancebo fruto” “Moça com velho casada, como velha se trata”. Não restará senão acautelar, prevenindo a fim de evitar “o mal maior”.

O sentimento de inutilidade e de subestimação cognitiva é expresso, de forma caustica, nos seguintes provérbios;

Homem velho, saco de azares. Má sorte para si e para os demais

“Queda de velho não levanta poeira”.

“0 Velho torna a engatinhar”.

“Burro velho não aprende línguas”; Velho emendado e espulgar cão, duas tolices são”.”Quem de novo não melhora de velho sempre piora”.

São diminuídas e adulteradas as competências, porventura outras e não as mesmas que podem ser desenvolvidas ao longo da vida. O envelhecimento activo/positivo perconizado por (Baltes e Baltes, 1990) e a fase da Sabedoria a que reporta Eriksom na teoria do desenvolvimento ao longo da vida bem como as neurociências, aportam novos dados determinam novas leituras e novos reposicionamentos.

Mas também se evidencia o bom senso … o conhecimento

“Velho com amor, inverno em flor”.“Macaco velho não mete a mão em cumbuca”.

Cada velho que morre é uma biblioteca que arde.

Como passam as representações sociais

Impregnação, persuasão e formação de percepções

Imprgegnação é o processo de aprendizagem radical que não necessita de qualquer repetição e pelo qual, no decurso de uma fase sensível do seu desenvolvimento e num periodo crítico de exposição se recebe um imprinting. Quando este é transmitido num período ideal um novo imprinting não o pode substituir. As características do fenómeno permanecem são a primazia da experiência e a irreversibilidade da preferência.

A heuristica da persuasão é um campo da psicologia social que marca percursos que se entrecruzam de forma sistémica e se refectem na vida ideias pré-concebidas, isto é, modelos cognitivos que resultam de uma generalização. Berger e Luckman (2004). Imprimem significados culturais decorrentes das influências que grupos e comunidades na transmissão do conhecimento necessário à gestão do quotidiano e à preservação da identidade cultural.

Percepções tem a função de captar informação dos acontecimentos do meio exterior ou do meio interno através da reflexão, pelo meio dos mecanismos sensoriais. Os receptores sensoriais não constituem apenas simples grelhas de leitura com base em estímulos. Transformando formas de energia recepcionadas por esses mesmos estímulos, em acontecimentos nervosos segundo normas e regras que o organismo percebe e descodifica. Todo o controlo passa por modulações dos centros superiores, transformando-as, segundo Piaget em actividades perceptivas. Tal tem a ver com as características dos estímulos, os limites colocados pelos receptores, à transmissão pelos neuro transmissores em relações cognitivas de causalidde ascendente e descendente. As inferências feitas pelo indviduo relativamente à percepção dos factos psicológicos decorre do modo como cada individuo trata os factos sociais com o contributo e ajuda de categorias conceptuais. Tal resulta no modo como o individuo explica os factores disposicionais (internos) e os factores situacionais (externos).

Ideias pré-concebidas, isto é, modelos cognitivos que resultam de uma generalização, “burro velho não aprende línguas”

Interpretações pouco precisas mas que conduzem a classificar pessoas ou grupos positiva ou negativamente;” mais vale só que mal acompanhado”

Tendências agressivas para com os membros de outro grupo manifestam-se como formas deterministas, xenófobas e de afirmação de poder, dividindo as pessoas em categorias. Mas estas manifestações adquirem particular sentido nas sociedades tradicionais em que funcionam de forma acutilande para marcar a supremacia intelectual dos grupos.

A sabedoria Africana traduzida em Provérbios

Em rituais como os do casamento, na apresentação das famílias, em que os grupos, ou tribos familiares pretendem fazer valer os direitos negociais em presença, tanto da parte da noiva como do noivo, os proverbios são utilizados para enaltecer as qualidades da noiva, com o efeto de aumentar o dote ou ainda para advertir para o excesso de argumentação e contrapor o queesta a ser apresentado como excessivo.

Nos óbitos são igualmente utilizados provérbios para explicar o que se passou. Para encontrar um sentdo para o insólito do que se passou, a perda de alguém. O mesmo acontece quando se trata de enaltecer as virtudes do que morreu e justificar o seu “passamento físico”.(morte).

Em resposta as pessoas curvam-se, batem as palmas para pedir a palavra. Quem responde tem que fazer o mesmo.

Quando o diálogo não é correspondido pelas partes em presença é considerado falta de sabedoria, falta de conhecimento das grandes verdades da existência. Este estado de conhecimento é considerado supremacia ou edstdo avançado de maturidade. Quem o não consegue transmitir desta forma, ainda que possua muito saber adquirido através dos livros, encontra-se num estado de imaturidade e, dificilmente saberá encarar as grandes verdades do que é viver.

Conclusão

Os provérbios, mesmo que portadores de mensagens por vezes controversas, são marcos de desenvolvimento e da formação de percepções, práticas e valores. Possuem um valor inquestionável e uma retórico assinalável, contribuindo para a formação dos individuos, e impregnação de posturas, comportamentos e de práticas culturais. Não há ninguém que os não utilize, de alguma forma, de tal modo estão presentes no nosso espectro cultural. São uma mais valia na compeensão do evoluir das sociedades, pois surgem como marcos que balizam o caminhar social sendo particularmente relevantes nas sociedades arcaicas e tradicionais que funcionam ainda de forma assinalavemente mítica como premonitores simbólicos. Permitem entender o efeito pedagógico das mensagens vinculadoras de aprendizagens, através da impregnação social e so sentido. Estas, para serem eficazes, tem que ser reveladoras da alma do sentir das comunidade e grupos, em processos de afiliação e de pertença, na afirmação de um património cultural comum. Os proverbios são deste modo, esteios de civilização

Bibliografia

Antero de Quental. (1871). Causa da decadência dos povos peninsulares. Lisboa: Guimarães Editora.

Baltes e Baltes. (1990). Psichological perspectives on successful aging:perspecti ves from the behavioural sciences. Canada: Cambridge University Press.

Beauvois, J. L. ( 1984) La psychologi du quotidienne. Paris: PUF.

Berger e Luckmann (2004). A construção social da realidade: Lisboa: Dina Livro.

Doise, W., e Mugny, G. ( 2002). Psicologia social e desenvolvimento cognitivo. Lisboa:Instituto Piaget.

Dortier, J. F. (2006). Une histoire des sciences humaines. Auxerre: Editions des sciences humaines.

Durkheim, E. (1893). De la division du travail social.Paris: F. Lacan.

Erikson, E. ( 1997). Life cycle completed. U.S. Copyrightled material.

Jonte, B. ( 2008). Conceptual labs as an arena for learning. Paper presented at SEFI – 2008. July 2-5, 2008.

Kohlberg, L. (1981). Essay on moral development, vol.I The philosophy of moral development. Harper e row. ISBM 3 – 8055-3716-6.

Max, W. ( 2004). A ética protestante e o espírito do capitalismo. Lisboa: Companhia das Letras.

Monteil, J. M. (1999). Social context and cognitive performance. London: Psichology Press. Taylor e Francis group.

Moscovici, S. (2007). Representações sociais. Brasil:Editora Vozes.

Piaget, J. (1932). The moral judgement of the child. London: Heinemann.

Rawls, J. (1971). Theory of justice. Massachusetts:Belknap Press of Harvard Uniersity Press.

Rotter, B. (1982). The development and applications of social learning theory. New York: Praeger

Spink M., J. (1993). Práticas discursivas e produção de sentidos. Aproximações teóricas e metedológicas. S. Paulo: Edições Cortez.

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domingo, 19 de julho de 2009

Estar próximo, estar com....

Maria da Conceição Henriques Serrenho Couvaneiro


Serviços de proximidade: Cidadania, responsabilidade social


A – Contextos de Cidadania

Nos periodos de transição que surgem acompanhados pelas crises, que se situam na sua génese, os movimentos sociais tomam posição e desempenham um papel decisivo, em cenários de mudança. Os fenómenos da modernidade e os actuais contextos político-sociais conduzem a novos posicionamentos da sociedade civil a que hoje, tal como no passado, se assiste no sentido de debelar e/ou resolver cenários ameaçadores do equilibrio estimado ou, simplesmente, para encontrar respostas às demandas do bem-estar colectivo. Estes movimentos, que se manifestam de forma tanto mais contundente, quanto maior é o clima de tensão, são definidas por Beck (2000) como:

- a relação das sociedades com os recursos da natureza e da cultura;
- a relação da sociedade com as ameaças, a sociedade e as ameaças por ela produzidas, que colocam em risco os fundamentos das ideias de segurança,
- o desencanto porque pasam os grupos face às fontes de significado.

Estos movimentos manifestam-se fora do Estado e das Instituições envolvendo, cada vez mais, a Sociedade Civil que se interroga sobre o seu futuro, frente a ameaças tais como: a escassez de recursos, os problemas ecológicos, as crises financeiras sem fim à vista, a precariedade das relações familares, a fragilidade dos Estados, da governação e das suas Instituições, que se mostram incapazes, em dados momentos, de manterem o equilibrio social, o bem comum, percepcionado em risco. Os processos reflexivos comuns, os temores e as angústias relativamente ao futuro, colocam os cidadãos perante a necessidade de desenvolverem as subpolíticas que conduzem ao questionamento e a repensar estratégias de acção, face à imperiosa e necessária mudança, o que Giddens designa de “políticas da vida” que conduzem a que os individuos e grupos sintam necessidade de tomar em mãos e/ou reafirmar a sua própria identidade. As preocupações deixaram de ser hoje, como eram no séc. XIX, apenas de natureza económica para serem de cariz cultural e identitário, onde a actividade simbólica e o poder, ocupam um lugar relevante. Afirmam-se no espaço colectivo prosseguindo estratégias globais de dimensão ética. Nas sociedades em risco as pessoas tornam-se ainda mais reflexivas. Pensam as suas responsabilidades face à iminência dos perigos e à necessidade de manter e/ou recuperar níveis e vida mais satisfatórios, relativamente a si e à comunidade. Movimentam-se no sentido de assumirem uma ética de responsabilidade a partir de um instinto de sobrevivência e da afirmação de si e da identidade colectiva.

Coloca-se então, a estes novos movimentos sociais, a questão da cidadania. Refazer precursos e tomar em suas mãos o poder de agir. A necessidade da acção colectiva e o envolvimento nas práticas sociais de pessoas e de grupos, cimentados pelas relações de proximidade com vista a actuarem na defesa dos interesses comuns, nos espaços espaços contiguos em que se encontram e onde podem demonstrar a sua capcidade de actuação, mostrando que é possível desenvolver projectos que produzam sentido nas suas vidas.
Estes projectos comuns mobilizam os actores sociais na expectativas de ganhos decorrentes da sua acção e no de que estes ganhos devam ser proporcionais a esta. Tal acção como refere Malucci constitui um processo interactivo através do qual individuos e grupos definem as estratégias a prosseguir e o campo das oportunidade e dos obstáculos conducentes à realização dos seus projectos de mudança. Investem o máximo da sua energia no delineamente destes projectos. Constroem assim o protagonismo de edificarem a sua história, com a sua vontade, as suas convições e crenças, os seus recursos. Resulta daí a sua participação enquanto actores sociais, bem como a consciência de si enquanto valor e consequentemente o aumento da sua auto-estima. Quebrando o puro interesse individualista, assimilam O OUTRO, num espaço de construção colectiva, reforçando o nós solidárioe a conquista da identidade social, cooperante. Hoje, num momento de idealizações crescentes, de individualismo atomista e das redes, partilhar poderia considerar-se tarefa mais facilitada pela via da abrangência global da informação. Ao contrário, tornam-se mais difícéis os processos de coesão e de de interactividade. A globalização abarca espaços universais mas aniquila a comunicação face a face, a partilha dos gestos comuns, dos espaços de vida, da cultura ancestral, das relações de vizinhança que se reduzem tanto mais, quanto mais muitos vivem juntos, que é o caso das grandes cidades. A falta de reconhecimento do outro na construção do nós, do grupo, produz a ilegitimidade dos actores o que impede um sistema de representações e de relações essenciais ao espaço de acção. Acresce a este fenómeno a desterritorialização e a ampliação dos espaços virtuais. A cooperação e a solidariedade afirmam-se nas relações de afectividade que implicam presença e acção. As redes potenciam esse espectro mas mas fragilizam a sua construção produzindo o risco de atomismo. A teoria da mobilização dos recursos e a teoria dos novos movimentos sociais afirmam-se em espaços virtuais que se constituem em novas formas de regulação social. Assiste-se hoje a um proliferar do movimento associativo sob todas as suas formas. Este diversificou-se e ganhou novas expressões muitas das quais conhecidas pelos internautas. Produziu a rearticulação do económico com as outras esferas sociais. Surgiram movimentos de indole mais alargada e com carácter mais ou menos expontâneo, como que num acordar da consciência colectiva, face às situações diversas e adversas das realidades sociais emergentes. Surgem acções colectivas diferentes das filantrópicas, de outrora. A perpesctiva da dádiva toma novos contornos, baseadas no sentimento de reciprocidade. Sabe-se que a injustiça na repartição e na posse dos bens constitui uma das grandes ameaças das sociedades contemporâneas. As necessidades dos mais desprotegidos passou, pelas suas consequências, a ter que ser considerada a grande questão de toda a humanidade. Novas respostas surgem tais como:

Os clubes de troca;
O preço justo;
O banco do tempo;
O micro crédito;
A auto-construção ;
Serviços de apoio domiciliáio;
O banco alimentar;
Os julgados de paz;
Os médicos e engenheiros sem fronteiras entre outros…

O fenómeno passa da sua origem local para os espaços globais onde os poblemas de iniquidade possam ocorrer. A desterritorialização e a abrangência dos espaços virtuais tormam a proximidade mais difusa e os problemas locais, de indole universal. Os princípios da ética da solidariedade e da responsabilidade são imperativos da cidadania. O não lucro e o interesse colectivo continuam a instigar estas acções que visam:
· A reassunção da dignidade própria;
· A Melhoria da qualidade de vida;
· A reinvindicação do crescimento e a perspectiva do meio ambiente;
· O crescimento qualitativo e de uma política de melhor nível de vida;
· Mudar as relações entre os sexos, as idades e acesso aos bens do conhecimento e da cultura;
· A criação de novos vínculos sociais e solidários, através da solução de problemas de proximidade, não ignorando as grandes questões de justiça que se colocam em Universos mais distantes, através de uma nova forma de estar no mundo;



B - Serviços de proximidade, o que são?
São uma forma organizada de exercer a cidadania responsável pelas cadeias solidárias da cooperação. De encontrar a resposta a problemas comuns.
Os serviços de proximidade baseiam-se nas práticas do quotidiano das populações, nas trocas simbólicas que se tecem na trama diária da vida local, nas aspirações, nos valores e nos desejos, das pessoas que são os directos usuários de bens comuns. Embora se possam apoiar nos recursos familiares não visam criar subordinação no interior da família. Ao contrário visam a criação de emprego, a coesão social, ou a geração de actividades económicas, sociais e culturais com vista ao “liame” social. A criação destes espaços públicos de proximidade são determinados segundo Guerin (2005) na articulação da procura com a oferta. Procedem à revalorização económica, não monetária. Às respostas às necessidades sentidas como comuns. Ao fortalecimento da sociedade civil sem que esta se substitua ao Estado. Ao fomento da atitude solidária e aos senimentos de coesão social. Surgem como oxigénio revitalizador do respirar colectivo. Chanial e Laville (2006) consideram a importância destes movimentos pela participação empenhada dos cidadãos a quem dizem respeito, como favorecedores do desenvolvimento sustentado e do respeito pelo meio ambiente. Trata-se, para França e Laville (2004) de agir no espaço público em matéria de desenolvimento local, visando a economia de sectores, preferencialmente populares, criando uma economia alternativa, que distribua com mais equitatividade. Que supere a tendência à exploração e à violência da “sobre posse” pela “infra posse” de bens, serviços e ou direitos. Uma economia centrada no trabalho e não no capital, que coloque o homem no centro e não considerado como valor de mercadoria. Torná-lo ser instruido, reevindicador dos seus direitos, pertencente a uma comunidade, cujo destino lhe compete tomar em suas mãos. A colectividade é a família, são os amigos, é a população de um território e não apenas sociedade cosmopolita sem rosto.

C - Com que instrumentos e porquê?
Cada vez se coloca, com mais pertinência, este movimento de cidadania para suprir a catástrofe de um capitalismo totalitário, ampliador das desigualdades sociais e de ameaças inéditas que pesam sobre o ambiente natural. O capitalismo asfixiante que se apresentou para maioria dos habitantes do planeta como único horizonte perceptivel, produziu miséria social e degradação, talvez sem retorno, do ambiente. As mudanças e a democraticidade tem de ser radicais nas finalidades e nos meios. Tem que provir de movimentos emancipatórios, pela iguadade, liberdade e respeito. A reabilitação das políticas dos direitos universais, não podem estar apenas consignados a espaços constitucionais. O Estado não pode reencontrar legitimidade, se não integrar no seu seio, as possibilidade de participação dos cidadãos, dos assalariados e consumidores, dos homens livres, religados pelo espírito associativo impregnado da solidariedade democrática. Deve, acima de tudo, favorecer a sua expressão voluntária apoiando estes movimentos de:
1. Homens livres apoiados ou não por correntes políticas diversa que se organizam com produtores associados tendo em vista a satisfação das suas necessidades, para reintegrarem o modelo de produção próprios do sistema capitalista;
2. Pequenos produtores associados que pretendem comprar vender os seus produtos em conjunto;
3. Assalariados que se associam para adquirirem, em conjunto, bens e serviços de consumo, visando ganhos de escala e melhor qualidade;
4. Pequenos produtores e assalariados que se associam para reunir poupanças em fundos rotativos que lhe permitem obter crédito com juros baixos;
5. Pequenos produtores e assalariados que criam associações mútuas de seguros cooperativas de habitação e cultura
6. Gente singular que preconiza o acesso aos bens da cultura e do conhecimento através do movimento associativo.
7. Os que deliberadamente procuram construir pela equidade a justiça e o bem social. Torna enfim, a terra mais habitável.

A EU adopta medidas que se destinam a reforçar esta vertente solidária impossivel de ignorar com vista ao reforço da dimensão local, dos territórios e das estratégias. Estão neste caso:
O livro Branco sobre o cescimento económico, a competitividade e o emprego como nova fonte de emprego local;
A estratégia de Lisboa que tem como objectivo primordial o crescimento económico baseado no desenvolvimento do conhecimento e na competitividade a partir do nível local;
A constituição Europeia (Bolkstein) com projectos de legislação que afectam o desemprego;
A cimeira da Primavera de 22/23 de Março de 2005 que reconheceu a economia solidária como elemento importante das novas políticas de emprego,
Todos estes instrumentos devem favorecer
A Solidariedade, a equidade e a participação
Através da investigação económica e das estratégias políticas,
Da investigação sobre, o diagnóstico e os programas ecológicos e ambientais;
A investigação sobre as metodologias relacionadas com a formação das pessoas e das comunidades, com vista ao desenvolvimento sustentado;
A investigação para o desenvolvimento de quadros legislativos e administrativos adequados;
A competência na área das metodologias para o desenvolvimento, lançamento , organização e gestão de projectos locais;
O Forum global para a globalização da solidariedade.

Todos estes movimentos de intenções, mesmo que sancionados por decretos e reiterados por magnas assembleias, não produzirão os efeitos necessários e urgentes, se a cooperação e a solidariedade não nortearem tais aspirações. Sem o envolvimeno das comunidades de base e dos grupos sociais afectados pelas situações de carência e de injustiça, tal não constituirá uma resposta efectiva aos diferentes problemas, sentidos pelas comunidades e grupos. Os serviços de proximidade, conhecendo as realidades que afectam os seus membros, são um inestimável contributo, a cognição actuante, no sentido da resolução dos problemas que se colocam a cada realidade local Se no centro se não colocar o homem e o seu direito à cidadania. É que as políticas devem ser feitas para os Homens e não os Homens para a política. A mudança de atitude tem que se processar através de uma crescente consciencialização de que é preciso agir, sem demora, local e globalmente. Assumir compromissos através de laços sociais, na construção da TERRA MATRIA. Está nas mãos de cada um em particular e, de todos no geral, a tomada de uma nova consciência de que as crises só são superadas se cada um fizer o que lhe competir pelo seu bem e pelo bem de todos. Na proximidade das acções instrumentais e na construção de afectos e de políticas realistas, movidas pelo sentimento de pertença a uma comunidade de destino, a que os políticos e os decisores, têm que prestar os melhores serviços, se dinamizam estes projectos de mudança. Pelas pessoas, pela natureza por esta nossa Terra “Património comum”, os serviços de proximidade, serão uma das respostas mais esperadas e mais actuantes. Amanhã já pode ser tarde.

PALAVRAS CHAVE: cidadania, responsabilidade, cooperação, solidariedade.

Julho de 2009
Maria da Conceição Couvaneiro