terça-feira, 24 de novembro de 2009

A Importância das Narrativas Autobiográficas No Idoso


“Cada velhice é consequência de uma história de vida”
GUSMÃO, N. (2003)


Como o próprio nome indica, as narrativas autobiográficas são relatos na primeira pessoa de episódios de vida que foram marcantes para a própria pessoa em determinado momento da sua vida, positiva ou negativamente.
As narrativas autobiográficas permitem aos idosos redescobrirem-se, racionalizarem experiências passadas, opções tomadas, entre outras, pela possibilidade de terem alguém que os ouve e os questiona a partir das suas próprias lógicas e contextos. Para além disso, permitem-nos compreender a força do projecto pessoal de cada um na construção de uma certa qualidade de vida, ao nível das dimensões mais subjectivas do viver. Claro que, as circunstâncias e experiências de vida variam enormemente, tal como os indivíduos envolvidos no processo de construção de uma ou outra maneira de ser e de pensar e é, por isso mesmo, que as histórias de vida são únicas, pessoais e subjectivas.
As narrativas autobiográficas podem não corresponder exactamente àquilo que realmente aconteceu. Ou seja, verifica-se normalmente, alguma confabulação mas isto também traz algo de positivo para o Idoso pois, no fundo, o modo como este “arranjou” a sua história é protector e não deve ser contrariado de modo algum.
Para os profissionais de saúde e outros prestadores de cuidados, elas assumem uma relevância fundamental pois permitem conhecer melhor o indivíduo e perceber gostos, interesses, situações causadoras de angústia e, com base nestas informações, proporcionarem um olhar mais atento sobre o mesmo e assim uma prestação de cuidados mais dirigidas e eficaz. Para os idosos estas também têm benefícios pois ao reflectirem sobre aquilo que experienciaram e as decisões que tomaram revivem situações, recordam momentos felizes e partilham sentimentos e emoções com quem se encontra do outro lado e isso é gerador de enorme bem-estar junto dos mesmos. Para além disso, as narrativas autobiográficas trazem sempre ao idoso a sensação de estar a ser valorizado, da sua opinião e experiência de vida serem importantes para os ouvintes e isso é algo de extremamente recompensador para o mesmo, especialmente numa sociedade actual onde o Idoso é relegado para segundo plano.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Combater a Solidão!!!

Tempo



Quando penso em Tempo, assim de repente, o que me vem à ideia é de como ele, o tempo, estará amanhã, depois de amanhã, no fim de semana… Quando me pedem que reflicta sobre ele, a coisa muda de figura. Tento lembrar-me do que pensava dele quando era miúda.
Ora quando era miúda pensava que tinha Tempo para tudo, independentemente do tempo que se fazia sentir, tinha Tempo para brincar, para estudar, para comer. Não me lembro o que respondia quando me perguntavam o queria ser quando fosse grande, provavelmente porque tinha Tempo para pensar nisso e tinha e tive.
Agora ao pensar em tempo, o que me surgem são perguntas, será que vou conseguir ter Tempo de…? Ter Tempo para…? E aí a resposta pode parecer redundante, só o (próprio) Tempo o dirá. Que conceito será este que no fundo comanda o nosso dia-a-dia, a nossa vida?! Há uma coisa que me aborrece quando penso em Tempo, a Espera. Temos de Esperar pelo Tempo certo para começar a sair à noite, temos de Esperar pelo Tempo certo para poder votar, temos também de Esperar que o Tempo dê para…. E para… tantas coisas! Depois há o outro lado que me alegra quando penso em Tempo, Acreditar. Acredito ter ainda tempo para me realizar; Acredito ter Tempo para sorrir; Acredito ter tempo para passar junto de quem amo. Acredito também ter Tempo para…Viver.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Sexualidade no Idoso: algumas considerações...

Envelhecer é uma característica comum e inevitável em todos os seres vivos. Para cada uma das espécies existe uma duração máxima de vida que é sempre precedida por um processo, mais ou menos, complexo, de evolução desigual e, portanto, de envelhecimento.
Ninguém escolhe envelhecer, nem como fazê-lo mas é um facto, cada vez mais incontornável, que vivemos até mais tarde e que, portanto, devemos tentar controlar o modo como isto ocorre. Assim, numa sociedade estereotipada, em que ao Idoso ainda é atribuída uma conotação negativa é importante perceber o que tem de ser alterado para promover uma melhor qualidade de vida no mesmo, transformando essa concepção redutora das pessoas idosas e valorizando a visão do envelhecimento como uma conquista da humanidade que deve ser celebrada.
Tamer, N. L. & Petriz, G. (2003) afirmam mesmo que “o tempo em que vivemos põe em evidência expectativas, contradições e paradoxos sobre questões fundamentais dos idosos e do mundo em que vivem”.
É então neste contexto que surge o conceito-chave de envelhecimento activo. Na Segunda Assembleia Mundial sobre o Envelhecimento ocorrida em Abril de 2002 é explicado que este se refere ao “processo de optimização do potencial de bem-estar social, físico e mental das pessoas ao longo da vida para que este período, que é cada vez mais longo, seja vivenciado de forma activa e autónoma”.
Uma das actividades mais fortemente ligadas à qualidade de vida e ao bem-estar no Idoso é a sexualidade que é, normalmente, um tema de difícil entendimento por parte das sociedades existentes. A ideia de que os idosos também possam manter relações sexuais não é culturalmente aceite. Prefere-se ignorar a mesma e fazer desaparecer do imaginário colectivo a sexualidade da pessoa idosa.
A sustentação da crença de que com o avançar da idade, ocorre um declínio da actividade sexual tem sido responsável por não se prestar atenção suficiente a esta componente tão importante da vida humana. A actividade sexual é atribuída às pessoas jovens, às pessoas com boa saúde e àquelas que são fisicamente atraentes.
Uma visão restritiva em relação à sexualidade considera igualmente que na Terceira Idade vive-se um período em que o indivíduo assume unicamente o papel de avô ou avó, cuida dos seus netos, faz tricô ou vê televisão. Porém, apesar deste viés cultural, esta faixa etária conserva a necessidade de uma expressão sexual continuada, não havendo pois, uma idade para que a actividade sexual, os pensamentos sobre sexo e o desejo acabem.
Para além disso, à medida que envelhecemos devemos tornar-nos conscientes das mudanças que vão ocorrendo no nosso corpo e compreender que sexualidade não é sinónimo de acto sexual. Nesta perspectiva López, F. & Fuertes, A. (1999) consideram que “a sexualidade muda com a idade. Somos sexuados ao longo de todo o ciclo vital e vivemos a sexualidade de forma bem diferente em cada etapa da vida. Por isso, o estudo da sexualidade impõe um enfoque fundamentalmente evolutivo”.
A sexualidade abrange então um vasto leque de actividades que podem ir desde o simples prazer da companhia da pessoa amada até ao orgasmo, pois a libido inclui desejos, pensamentos, fantasias, satisfações e prazeres. Portanto, “a sexualidade tem pouco ou nada a ver unicamente com erecções e orgasmos, e sim com comunhão, com tocar e se deixar tocar, acariciar e ser acariciado, ter e dar prazer. É só conseguir mudar o padrão de encarar e de actuar, usando formas abertas e receptivas entre si, que se chega ao nirvana nos encontros amorosos” [Fucs (1992), citado por Reis, C. A. C. (2001)].
Freitas, F. et al. (2009) na página da Internet intitulada Educação Sénior (http://max.uma.pt/~EdSenior/index_ficheiros/Page422.htm) acrescentam que “através dos estudos feitos por Kinsey, Masters e Johnson, Hunt e outros autores, confirmou-se que o desejo e os interesses sexuais mantêm-se na velhice, e que um número bastante razoável de idosos afirma ter comportamentos sexuais coitais. As conclusões tiradas deste estudo, reflectem claramente que muitos idosos desejam ter prazer com a actividade sexual e que uma parte mantém a actividade mesmo até idades muito avançadas”.
A deficiência física não neutraliza a sexualidade e, por conseguinte, é necessário encarar a função sexual como parte integrante da vida e que o seu exercício rejuvenesce o ego e é promotor de bem-estar e qualidade de vida.

Palavras-chave: envelhecimento, qualidade de vida, sexualidade

Bibliografia:
- LÓPEZ, F. & FUERTES, A. (1999). Para compreender a sexualidade. Lisboa: Associação para o planeamento da família;

- REIS, C. A. C. (2001). Sexualidade na terceira idade: não posso, não quero ou não devo. O mito da dessexuauzação das idosas e a influência da estereotipia negativa as mesmas e suas consequências na vida afectiva e sexual. Revista de Iniciação Científica Newton Paiva;


- Link da página da Internet intitulada Educação Sénior: http://max.uma.pt/~EdSenior/index_ficheiros/Page422.htm (conforme retirado em 18 de Agosto de 2009).

domingo, 2 de agosto de 2009

Deixa-me contar-te..
Precisamos de nos contar para sermos. Nessecitamos da narrativa para vislumbrarmos o nosso EU genuino, a nossa identidade. Vamos (re)compondo as diferentes performances, com que mesclamos e registamos a nossa trajectória pessoal e colectiva. Precisamos de preservar a incisão da nossa pegada ecológica, no espaço e no tempo. De mantermos intacta ou pouco afectada a nossa personagem, nos diferentes cenários do papel de actor. Serres, M., (2008) refere que: “A nossa relação fundamental, com a vida e com o corpo, seja de concordância ou discordância, acompanha a constituição interna do tempo….). Repete ou reafirma-se na sua expressão de continuos descontinuos, relativamente aos acontecimentos normativos, decorrentes das fases de transição.
Na adolescência e na velhice os processos genético-biológicos, graduados pela idade, têm mais força na regulação do desenvolvimento do que os de natureza sócio-cultural.
Gineste e Pelissier (2008) referem que o adolescente é alguém que vive com temor e insegurança, o desenvolvimento do seu corpo, a penugem o aparecimento das partes salientes, o crescimento abrupto e desarmoniozo…..A percepção das mudanças físicas, os rearranjos emocionais e e psicológicos que ocorrem, o receio do olhar do outro e do seu julgamento, a aventura do desconhecido e do futuro incerto, a ausência do amor…ou o receio do desamor, são cenários temíveis para o adolescente .
No envelhecimento existe, igualmente, o confronto com um periodo de mudanças em que as fragilidades físicas, a decrepitude, as perturbações da memória e do conhecimento, produzem transtornos no equilibrio físico emocional. São necessários elevados recursos para fazer face a esta nova e desconhecida etapa, para encarar o futuro, cada vez mais incerto. O temor da perda do amor, o receio do desamor, a solidão…A identidade a reconstruir ou descontruir, assenta tanto na adoslescência como na velhice, na profissão, no trabalho ou na falta dele, no lazer, na reflexão, mas sobretudo na aparência física, no medo de desagradar e de não ser amado. É necessário, pois, manter-se a par das tendências, dos figurinos comuns, com vista a estar próximo do ideal social e dos afectos.

Deixa-me contar-te para compreender quem sou e…. SER?
A media que se estabelecem itineráios da memória refaz-se o passado e reinventa-se o futuro. (Baltes, Cornelius, & Nesselroade, 1979; Baltes, Reese, & Lipsitt, 1980; Lerner, 1983) referem como episódios mais marcantes, a maturação neurológica dos primeiros anos, puberdade/adolescência. Seguem-se os factos de natureza psicossocial, ilustrados pelo ingresso na escola, o casamento e a reforma, eventos de uma assinalada construção/desconstrução, física e psicológica. São vividos com particular preocupação, a profissão, o emprego ou a perda deste, constituir famíia ou perdê-la pela viuvez, acidentes, doenças, lutos, ausência de amigos e de familiares. Baltes e Baltes (1998), reelaboraram abstrações mais refinadas sobre a actuação concorrente das determinantes genético-biológicas e sócio-culturais do desenvolvimento, segundo as quais: 1) os aspectos ontogénicos, e a interação dinâmica entre factores biológicos e culturais mudam ao longo da vida; 2) Surge um maior mobilização de recursos, que passam da ênfase no crescimento (na infância e juventude) à ênfase na manutenção e na regulação das perdas (na velhice); 3) ocorre a actuação sistémica dos mecanismos de selecção, optimização e compensação nas etapas do desenvolvimento e do envelhecimento bem sucedido. O ciclo fecha-se em processos sempre dinâmicos, em que os extremos parecem tocar-se. Assim se realiza a narrativa humana, processo dinâmico e continuo, que suscita memória e balanço, para encontrar sentido. Por isso se conta, se avalia e refaz este itinerário cartográfico da vida.

Palavra chave: desenvolvimento, percepção , narrativa

sábado, 25 de julho de 2009

Maria da Conceição Serrenho Couvaneiro (phd)

Psicologia social

Instituto Piaget- Almada/Portugal

Provérbios Mitos e Práxis

Este artigo pretende evidenciar a importância dos provérbios na formação e na transmissão de valores. Entender o modo como constituem marcas de um património que se transmite de geração em geração, geralmente pela via oral e popular. Compreender o seu impacto, enquanto transmissores de crenças e ideais que norteiam as sociedades, e se constituiem como marcos de uma filosofia, transmitida de forma continuada, às gerações vindouras. Reflectir sobre a sua função psicopedagógica, como marcos ancestrais de cultura, que contribui para a preservação e a manutenção da moral, dos costumes e da tradição, para que a humanidade prossiga a sua saga, dentro do que é considerado o seu traço identitário.

Abordando os constructos da psicologia procurar-se-à compreender a função dos provérbios na vinculcação da sabedoria popular, através da aprendizagem social. Do modo como são transmissores de saberes e convicções, de expressão universal, como geram comportamentos próprios de uma cultura, assente em normas estratificadoras. A categorização social e o poder estão presentes quando são evidenciados aspectos, políticos e ou religiosos, por vezes eivados de preconceitos e estereotipia. De forma subtil e subjectiva exaltam ou penalizam os grupos sociais minoritários e ou fragilizados, nomeadamente os idosos, as mulheres. Ao contrário enaltecem as virtudes consideradas relevantes ao ideário social que defendem. Como estes resultam da expressão de um inconsciente colectivo (Durkheim 1893), e as suas formas subjectivas de afirmação, enquanto representações sociais (Moscovici 2007). Estas são uma forma de abordagem explicativa dos processos de “imprinting”. Partem do conhecimento do senso comum e, pela cognição social, constituem o “attachment” cultural entre passado e futuro. Uma forma de leitura simplificada, das realidades quotidianas.

Através da ligação entre mitos e praxis observam-se as diferenças que os provérbios apresentam nas sociedades tradicionais onde a sua expressão é superior à das sociedades modernas. Esta é uma abordagem assente em experiências pessoais e fundadas na observação. Conforme o que se relata a seguir.

Um mito, uma construção de práxis

Desde cedo fui ouvindo, a voz sábia da minha mãe e dos mais velhos, transmitir mensagens que me eram agradáveis de ouvir, devido ao tom tão convincente e afectivo com que eram vinculadas e à confiança que inspiravam. A par de outras máximas, hisórias e conselhos que com o tempo adquiriam particular significado, ia ancorando as minhas vivências inscritas neste quadro de referências, coerentemente transmitidas. Fui assim esculpindo muitos dos meus conceitos, acerca da vida, a cartografia das minhas convicções, em constante afirmação e reconstrução.

Expressões como " não faças aos outros o que não gostarias que te fizessem a ti", “faz bem, sem olhar a quem”, “ Diz-me com quem andas dir-te-ei quem és” ou ...“ “mais vale só que mal acompanhado” norteavamo meu caminhar, constituindo a dado momento, verdades inqestionáveis. Intuia, com elas, uma ética relacionl aassente naresponsabilidade e procurava estabelecer uma atitude de empatia com os outros, facilitadora da comunicação, da cooperação e da socialização, ao mesmo tempo que formava uma moral que se revelava um tanto coersiva. Só mais tarde percebi que, a função de tão curtas histórias, era a de constituirem máximas de moral e de preceitos a que havia de dar cumprimento, para viver bem e ser feliz.

Os provérbios vinculam técnicas simbólicas de sabedoria de adesão inquestionável e incisiva. Utilizam o ritmo, a metáfora e a aliteração, o conselho e a regra. São o saber consolidado, sem a necessária demonstração ou a imposição de passar pelo ónus da prova pois são a apropriação subtil da normatividade, vinculada pela via subjectiva. Aconselham procedimento e indicam códigos de conduta viver em sociedade e para vencer na vida. São imperativos mesmo não sendo dogmáticos. De forma irónica, sarcástica mesmo, ou directa , linear e consensual, encerram conceitos que, no seu discurso breve, trasmitem lições de vida. Surgem como a monitoragem do caminho e o esteio para as dúvidas e as incertezas. Constituem-se verdades ”fundantes” a que se recorre mas que, com o tempo, se refazem, mesmo que, as primeiras percepções, nunca deixem de ficar sinalizadas. São mecanismos norteadores da moral e da ética processual, que apelam ao esforço compensado ou, na sua ausência, à punição tal como se pode constacar nos exemplos que se seguem: “Madruga e verás, trabalha e terás”; “quem não cansa não alcança”; “quem não trabuca não manduca”; “ o prometido é devido” ou ainda “quem boa cama fizer nela se deitará” O cunho sinalizador da valorização do trabalho, do dever e da responsabilidade, surgem inequivocamente nos provérbios, a reforçar outras mensagens de sentido idêntico, relativas ao modelo de vida, veiculadas nos cenários educativos. O convite à participação empenhada, para a justa apropriação dos recursos e gestão dos meios, a consciência do papel activo que a cada um cabe dentro da função delineada em projectos de vida inscrevem-se, pr esta via, no imaginário pessoal . Definem a condição de utente usuário activo e transformador, o papel de actor, num processo de desenvolvimento empenhado e no sentido da repartição equitativa de recurso. Antes de qualquer tratado sócio económico e de direito, antes que se pudessem teorizar, os princípios da justiça, definidos entre outros, por John Rawls, surgem eivadas de sentido, no anúncio proverbial , as máximas de solidariedade, propícias a uma vida mais partilhada, ou ao contrário a alertar para os benefícios da defesa individual; mas a reafirmar a consciência de ser usuário e contrariar a usura.

Os provérbios, expressão do senso comum, permanecem praticamente imutáveis ao logo dos tempos, ainda que assumam diferentes significados e performances e outros se hes vão acrescentando, consoante as culturas de que são oriundos ou em confronto com novos paradigmas.

Os modelos cognitivos, aprofundados por Beauvois (1984), Jonte (2008) e Monteil (1999), relativo aos processos ideológicos e os processos sociais de (Doise e Mugny 2002), são elaborados, sob o ponto de vista cognitivo, à medida que recolhemos fragmentos de informação extraímos conclusões e a partir delas e tentamos um traçado coerente, no itinerário da vida. O que se apresenta como senso comum pode ser, então, observado à luz dos processos cognitivos e emocionais, que lhes estão subjacentes.

Os provérbios, no seu carácter metafórico, inculcam ideologia. Não são inocentes do ponto de vista ideológico, filosófico, políticoe religioso. Vejamos as expressões como as que seguem :

“Quem se humilha será exaltado, quem se exalta será humilhado, ou, “é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha de que um rico entrar no reino dos céus”. Na primeira citação está-se perante a dedução de que, um juízo exacerbado do valor pessoal, poderá impedir o desenvolvimento de cada, do seu SELF em função dos demais, por isso é aconselhado anulação, o silenciamento de si, para obter uma glória maior , por ventura a recompensa celeste. A humildade pode assumir o caracter de submisão, o apagamento de si, a anulação, o que pode ser considerada uma outra forma de orgulho. Na segunda citação observa-se um desafio ao conformismo, a regeição do sentimento da propriedade como algo de bom já que não tem lugar nos desígnios divinos. Tais máximas, fundamentadas em ideologias, de pendor religiosas judaico cristão, subvertem os conceitos da assunção de SI, como valor próprio, pelo reforço da humildade (apagamento) como virtude, que se pode vir a traduzir em falsas modéstias, dependência e de sujeição. Conduzem à aceitação/resignação, tão do agrado de regimes políticos autoritários. Assentam em pressupostos de que sofrer para se obter um outro bem, perpétuo e transcendental, justifica uma vida desditosa. Pode mesmo pressupor aceitar a injustiça em nome das bem-venturanças, “ bem aventurados os mansos…pois deles é o reino dos céus”.”Bem aventurados os pacíficos porque possuirão a terra” Tal pode pressupor abdicar, pacificamente, da condição humana permitindo que o “destino de cada um seja da responsabilidade de uma qualquer divindade, política ou celestial”. Do mesmo modo que os proverbios estas máximas contêm poder mítico e transcendental, que Max Weber (2004) trata e, mais proximamente (em Portugal), Antero de Quental (1871) alude na sua obra “causa da decadência dos povos peninsulares” pode constituir um poderoso narcótico para debelar algumas angústias do presente parecendo superar (momentaneamente) os sofrimentos. O poder, assim manifestado, minimiza o direito e adultera, o sentimento de si como valor, atribuição causal, (Heider, 1958) da supremacia de um destino ou poder transcendental. Induz atitudes de heteronomia, assumindo o “locus de controlo externo” (Rotter, 1958), um papel determinante com a demissão das responsabilidades que lhe competem. Comprometem os processos de autonomia e liberdade, favorecem o livre arbítrio, impedindo que cada um tome em suas mãos a condução do seu destino, na luta pelo direito ao bem-estar.

“Filho és pai serás” vincula o sentido de uma moral de compromisso que funciona como constrangimento aos sentimentos de alienação da responsabilidades para com os mais velhos. Revelam ainda situações de contradição entre o social e o individual, entre a partilha e o egoísmo contrários a uma vivência solidária. Ao respeito pelos que foram os autores da nossa vida. A sacralidade desta pertença é evidenciada pela “ameaça, presente na segunda parte do provérbio…….” Como fizeres assim acharas…”. Anuncia-se a passagem de uma moral heterónima a uma moral autónoma (Piaget, 1932) e Kolbherg ( 1981).

Os princípios da acção são assim determinados por conceitos fundamentais que apontam inevitavelmente para atitudes e comportamentos norteados por um inconsciente colectivo que define conteúdos, e arquétipos, reproduz ou aniquila imagos, numa espécie de ética da criatividade da cooperação e solidariedade tal como é anunciada por Desroche na sua obra “ as três éticas e que se transforma em convicções, associando mesmo que imperceptivelmente, conceitos de rito, ao modos fazendo, na passagem à praxis, tal como é anunciada por Marx. Transforma-se em pano de fundo e cenário vivencial, das diferentes gerações. Inscrevem padrões culturais do imaginário colectivo (Durkheim ) que, só muito lentamente, se vai transformando.

Os provérbios inserem-se numa mística em que o simbólico marca o real, dando-lhe um carácter de sagrado manifestando-se pelo inculcar de uma mensagem que suscita a passagem dos valores a inquestionáveis verdades, quase de natureza metafísica, sobretudo ao nível dos grupos sociais comunitários, pela premonição e algum temor. A sua transmissão assenta na tradição e um certo culto popular de carácter subjectivo reutilizando os símbolos e provocando inevitáveis adesões. “ nunca digas, desta água não beberei”; “a justiça tarda mas não falta”; “quem semeia ventos colhe tempestades”.

O real e o simbólico entrecruzam-se numa miscelânea de sentidos, onde os contraditórios e os opostos tomam lugar. Transportam-se para o quotidiano em rituais agregadores em que as manifestações de sentires se transformam em princípios de acção e ideais comuns.

O conhecimento enquanto ciência avalia, modifica, retêm ou abandona modelos se não forem capazes de resistir às provas empíricas. Tende a explicar os comportamentos das pessoas. O senso comum procede e influência através da justeza das mensagens, dos aspectos afectivos de que as mesmas são portadoras, da repetição e encadeamento dos sentidos que as vinculam, da redundância. Assumindo o carácter de conselho, quase sagrado, não necessitam da prova pois são assimilados através do que parece obvio e funciona pela redundância.

A impregnação social exerce o seu efeito, virtualmente, sobre os nossos pensamentos, sentimentos e condutas. Leva-nos a moldar as nossas percepções. As mensagens persuasivas (destinadas a criar, modificar ou reforçar atitudes) assentam nas emoções que franqueiam a porta à construção da realidade, à racionalidade ( Berger e Luckman, 2004).

A impregnação social vai construindo um território de representações que resultam no acto de transformar em categorias ou objectos de pensamento, que reproduzem imagens mentais mesmo que ajustem e reformulem concepções anteriores. Com origem em Hegel as representações evidenciam a dinâmica do processo, com construções mentais activas que balançam entre a propriedade dos objectos e a sua imagem, sempre revestida de múltiplas significações, passando do carácter intuitivo das imagens transformando-as em pensamento. De múltiplos significados e com a “contaminação ou leitura enviesada” que os diferentes sentires e expressões lhes vão acrescentando, assim se vão tecendo os territórios da nossas convicções mais profundas, baseadas em fenómenos do senso comum. Com base em E. DurKheim, Moscovici (2007) retoma esta mesma problemática das representações sociais como modalidades de conhecimento prático orientadas por e para a comunicação a compreensão e o controlo do meio ambiente determinados por processos cognitivos geralmente assumidos e por processos funcionais socialmente estabelecidos. Podem representar interpretação, não apenas conhecimento, mas com a marca do sentir e o filtro dos olhares. Não é pois, apenas o conhecimento que interessa, mas as suas implicações práticas. O conhecimento através representações sociais é uma via, a primeira. Neta estão contidas, para interpretar a realidade, a icnografia, literatura, canções, provérbios, mitos,…. (Spink, M,J.200,1993)

Resistindo à prova dos factos vão se formando os e preconceitos e os estereótipos que vão surgem através de alguns processos degradativos de algumas experiências enviesadas ou menos consentâneas com as leituras de uma determinada realidade. Pode definir-se estereotipo “como crenças ou representações rígidas e simplificadas da realidade, geralmente partilhadas por um grupo mais ou menos alargado (eventualmente os membros de uma sociedade inteira) relativamente a instituições pessoas ou grupos. O estereótipo releva muitas vezes do preconceito. É caricatural e unificador, sendo os traços atribuídos isolados de um complexo de traços e sendo ignoradas as diferenças e cambiantes, ( Dortier, J-F., 2006) .

Os caracteres étnicos, raciais, de género e de velhice são exemplos de estereótipos marcados pelos preconceitos. Tratando-se de condicionamentos aos estimulo vão naturalmente repercutir-se nas respostas a dar e na justificação do preconceito.

Provérbios e estereótipos relativos aos idosos

A Depreciação por comparação entre a juventude e a velhice surge nos provérbios estabelecendo a analogia entre as diferentes virtualidades ou competências reconhecidas nos diversos grupos etários. Não será de estranhar que, numa sociedade que tem como fulcro a funcionalidade e o interesse utilitário, que os velhos surjam muito desvalorizados enquanto que os jovens são considerados mais valia social, inquestionável. Os provérbios populares evidenciam-no como a seguir se pode ver.

“Mais quero o velho que me ame do que o moço que me assombre”.

“Amor e sabedoria fazem rara companhia”.

Mas o preconceito surge de forma mais eversiva quando se trata da manifestação dos afectos. Parece que a sociedade considera vedada aos idosos a possibilidade de manifestar os seus afectos, de serem portadores de emoções. A sexualidade, presente ao longo de toda a vida humana e a manifestação sensível dos afectos, será prerrogativa dos mais novos. A representação social da velhice considera que sabedoria ou estado maduro da vida adulta (Erikson, 1997) – não consentânea com o amor e suas manifestações sensoriais.

Vejamos relativamente ao amor os seguintes provérbios: “ velho enamorado cedo enterrado”, “0 amor no velho traz culpa, mas no mancebo fruto” “Moça com velho casada, como velha se trata”. Não restará senão acautelar, prevenindo a fim de evitar “o mal maior”.

O sentimento de inutilidade e de subestimação cognitiva é expresso, de forma caustica, nos seguintes provérbios;

Homem velho, saco de azares. Má sorte para si e para os demais

“Queda de velho não levanta poeira”.

“0 Velho torna a engatinhar”.

“Burro velho não aprende línguas”; Velho emendado e espulgar cão, duas tolices são”.”Quem de novo não melhora de velho sempre piora”.

São diminuídas e adulteradas as competências, porventura outras e não as mesmas que podem ser desenvolvidas ao longo da vida. O envelhecimento activo/positivo perconizado por (Baltes e Baltes, 1990) e a fase da Sabedoria a que reporta Eriksom na teoria do desenvolvimento ao longo da vida bem como as neurociências, aportam novos dados determinam novas leituras e novos reposicionamentos.

Mas também se evidencia o bom senso … o conhecimento

“Velho com amor, inverno em flor”.“Macaco velho não mete a mão em cumbuca”.

Cada velho que morre é uma biblioteca que arde.

Como passam as representações sociais

Impregnação, persuasão e formação de percepções

Imprgegnação é o processo de aprendizagem radical que não necessita de qualquer repetição e pelo qual, no decurso de uma fase sensível do seu desenvolvimento e num periodo crítico de exposição se recebe um imprinting. Quando este é transmitido num período ideal um novo imprinting não o pode substituir. As características do fenómeno permanecem são a primazia da experiência e a irreversibilidade da preferência.

A heuristica da persuasão é um campo da psicologia social que marca percursos que se entrecruzam de forma sistémica e se refectem na vida ideias pré-concebidas, isto é, modelos cognitivos que resultam de uma generalização. Berger e Luckman (2004). Imprimem significados culturais decorrentes das influências que grupos e comunidades na transmissão do conhecimento necessário à gestão do quotidiano e à preservação da identidade cultural.

Percepções tem a função de captar informação dos acontecimentos do meio exterior ou do meio interno através da reflexão, pelo meio dos mecanismos sensoriais. Os receptores sensoriais não constituem apenas simples grelhas de leitura com base em estímulos. Transformando formas de energia recepcionadas por esses mesmos estímulos, em acontecimentos nervosos segundo normas e regras que o organismo percebe e descodifica. Todo o controlo passa por modulações dos centros superiores, transformando-as, segundo Piaget em actividades perceptivas. Tal tem a ver com as características dos estímulos, os limites colocados pelos receptores, à transmissão pelos neuro transmissores em relações cognitivas de causalidde ascendente e descendente. As inferências feitas pelo indviduo relativamente à percepção dos factos psicológicos decorre do modo como cada individuo trata os factos sociais com o contributo e ajuda de categorias conceptuais. Tal resulta no modo como o individuo explica os factores disposicionais (internos) e os factores situacionais (externos).

Ideias pré-concebidas, isto é, modelos cognitivos que resultam de uma generalização, “burro velho não aprende línguas”

Interpretações pouco precisas mas que conduzem a classificar pessoas ou grupos positiva ou negativamente;” mais vale só que mal acompanhado”

Tendências agressivas para com os membros de outro grupo manifestam-se como formas deterministas, xenófobas e de afirmação de poder, dividindo as pessoas em categorias. Mas estas manifestações adquirem particular sentido nas sociedades tradicionais em que funcionam de forma acutilande para marcar a supremacia intelectual dos grupos.

A sabedoria Africana traduzida em Provérbios

Em rituais como os do casamento, na apresentação das famílias, em que os grupos, ou tribos familiares pretendem fazer valer os direitos negociais em presença, tanto da parte da noiva como do noivo, os proverbios são utilizados para enaltecer as qualidades da noiva, com o efeto de aumentar o dote ou ainda para advertir para o excesso de argumentação e contrapor o queesta a ser apresentado como excessivo.

Nos óbitos são igualmente utilizados provérbios para explicar o que se passou. Para encontrar um sentdo para o insólito do que se passou, a perda de alguém. O mesmo acontece quando se trata de enaltecer as virtudes do que morreu e justificar o seu “passamento físico”.(morte).

Em resposta as pessoas curvam-se, batem as palmas para pedir a palavra. Quem responde tem que fazer o mesmo.

Quando o diálogo não é correspondido pelas partes em presença é considerado falta de sabedoria, falta de conhecimento das grandes verdades da existência. Este estado de conhecimento é considerado supremacia ou edstdo avançado de maturidade. Quem o não consegue transmitir desta forma, ainda que possua muito saber adquirido através dos livros, encontra-se num estado de imaturidade e, dificilmente saberá encarar as grandes verdades do que é viver.

Conclusão

Os provérbios, mesmo que portadores de mensagens por vezes controversas, são marcos de desenvolvimento e da formação de percepções, práticas e valores. Possuem um valor inquestionável e uma retórico assinalável, contribuindo para a formação dos individuos, e impregnação de posturas, comportamentos e de práticas culturais. Não há ninguém que os não utilize, de alguma forma, de tal modo estão presentes no nosso espectro cultural. São uma mais valia na compeensão do evoluir das sociedades, pois surgem como marcos que balizam o caminhar social sendo particularmente relevantes nas sociedades arcaicas e tradicionais que funcionam ainda de forma assinalavemente mítica como premonitores simbólicos. Permitem entender o efeito pedagógico das mensagens vinculadoras de aprendizagens, através da impregnação social e so sentido. Estas, para serem eficazes, tem que ser reveladoras da alma do sentir das comunidade e grupos, em processos de afiliação e de pertença, na afirmação de um património cultural comum. Os proverbios são deste modo, esteios de civilização

Bibliografia

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domingo, 19 de julho de 2009

Estar próximo, estar com....

Maria da Conceição Henriques Serrenho Couvaneiro


Serviços de proximidade: Cidadania, responsabilidade social


A – Contextos de Cidadania

Nos periodos de transição que surgem acompanhados pelas crises, que se situam na sua génese, os movimentos sociais tomam posição e desempenham um papel decisivo, em cenários de mudança. Os fenómenos da modernidade e os actuais contextos político-sociais conduzem a novos posicionamentos da sociedade civil a que hoje, tal como no passado, se assiste no sentido de debelar e/ou resolver cenários ameaçadores do equilibrio estimado ou, simplesmente, para encontrar respostas às demandas do bem-estar colectivo. Estes movimentos, que se manifestam de forma tanto mais contundente, quanto maior é o clima de tensão, são definidas por Beck (2000) como:

- a relação das sociedades com os recursos da natureza e da cultura;
- a relação da sociedade com as ameaças, a sociedade e as ameaças por ela produzidas, que colocam em risco os fundamentos das ideias de segurança,
- o desencanto porque pasam os grupos face às fontes de significado.

Estos movimentos manifestam-se fora do Estado e das Instituições envolvendo, cada vez mais, a Sociedade Civil que se interroga sobre o seu futuro, frente a ameaças tais como: a escassez de recursos, os problemas ecológicos, as crises financeiras sem fim à vista, a precariedade das relações familares, a fragilidade dos Estados, da governação e das suas Instituições, que se mostram incapazes, em dados momentos, de manterem o equilibrio social, o bem comum, percepcionado em risco. Os processos reflexivos comuns, os temores e as angústias relativamente ao futuro, colocam os cidadãos perante a necessidade de desenvolverem as subpolíticas que conduzem ao questionamento e a repensar estratégias de acção, face à imperiosa e necessária mudança, o que Giddens designa de “políticas da vida” que conduzem a que os individuos e grupos sintam necessidade de tomar em mãos e/ou reafirmar a sua própria identidade. As preocupações deixaram de ser hoje, como eram no séc. XIX, apenas de natureza económica para serem de cariz cultural e identitário, onde a actividade simbólica e o poder, ocupam um lugar relevante. Afirmam-se no espaço colectivo prosseguindo estratégias globais de dimensão ética. Nas sociedades em risco as pessoas tornam-se ainda mais reflexivas. Pensam as suas responsabilidades face à iminência dos perigos e à necessidade de manter e/ou recuperar níveis e vida mais satisfatórios, relativamente a si e à comunidade. Movimentam-se no sentido de assumirem uma ética de responsabilidade a partir de um instinto de sobrevivência e da afirmação de si e da identidade colectiva.

Coloca-se então, a estes novos movimentos sociais, a questão da cidadania. Refazer precursos e tomar em suas mãos o poder de agir. A necessidade da acção colectiva e o envolvimento nas práticas sociais de pessoas e de grupos, cimentados pelas relações de proximidade com vista a actuarem na defesa dos interesses comuns, nos espaços espaços contiguos em que se encontram e onde podem demonstrar a sua capcidade de actuação, mostrando que é possível desenvolver projectos que produzam sentido nas suas vidas.
Estes projectos comuns mobilizam os actores sociais na expectativas de ganhos decorrentes da sua acção e no de que estes ganhos devam ser proporcionais a esta. Tal acção como refere Malucci constitui um processo interactivo através do qual individuos e grupos definem as estratégias a prosseguir e o campo das oportunidade e dos obstáculos conducentes à realização dos seus projectos de mudança. Investem o máximo da sua energia no delineamente destes projectos. Constroem assim o protagonismo de edificarem a sua história, com a sua vontade, as suas convições e crenças, os seus recursos. Resulta daí a sua participação enquanto actores sociais, bem como a consciência de si enquanto valor e consequentemente o aumento da sua auto-estima. Quebrando o puro interesse individualista, assimilam O OUTRO, num espaço de construção colectiva, reforçando o nós solidárioe a conquista da identidade social, cooperante. Hoje, num momento de idealizações crescentes, de individualismo atomista e das redes, partilhar poderia considerar-se tarefa mais facilitada pela via da abrangência global da informação. Ao contrário, tornam-se mais difícéis os processos de coesão e de de interactividade. A globalização abarca espaços universais mas aniquila a comunicação face a face, a partilha dos gestos comuns, dos espaços de vida, da cultura ancestral, das relações de vizinhança que se reduzem tanto mais, quanto mais muitos vivem juntos, que é o caso das grandes cidades. A falta de reconhecimento do outro na construção do nós, do grupo, produz a ilegitimidade dos actores o que impede um sistema de representações e de relações essenciais ao espaço de acção. Acresce a este fenómeno a desterritorialização e a ampliação dos espaços virtuais. A cooperação e a solidariedade afirmam-se nas relações de afectividade que implicam presença e acção. As redes potenciam esse espectro mas mas fragilizam a sua construção produzindo o risco de atomismo. A teoria da mobilização dos recursos e a teoria dos novos movimentos sociais afirmam-se em espaços virtuais que se constituem em novas formas de regulação social. Assiste-se hoje a um proliferar do movimento associativo sob todas as suas formas. Este diversificou-se e ganhou novas expressões muitas das quais conhecidas pelos internautas. Produziu a rearticulação do económico com as outras esferas sociais. Surgiram movimentos de indole mais alargada e com carácter mais ou menos expontâneo, como que num acordar da consciência colectiva, face às situações diversas e adversas das realidades sociais emergentes. Surgem acções colectivas diferentes das filantrópicas, de outrora. A perpesctiva da dádiva toma novos contornos, baseadas no sentimento de reciprocidade. Sabe-se que a injustiça na repartição e na posse dos bens constitui uma das grandes ameaças das sociedades contemporâneas. As necessidades dos mais desprotegidos passou, pelas suas consequências, a ter que ser considerada a grande questão de toda a humanidade. Novas respostas surgem tais como:

Os clubes de troca;
O preço justo;
O banco do tempo;
O micro crédito;
A auto-construção ;
Serviços de apoio domiciliáio;
O banco alimentar;
Os julgados de paz;
Os médicos e engenheiros sem fronteiras entre outros…

O fenómeno passa da sua origem local para os espaços globais onde os poblemas de iniquidade possam ocorrer. A desterritorialização e a abrangência dos espaços virtuais tormam a proximidade mais difusa e os problemas locais, de indole universal. Os princípios da ética da solidariedade e da responsabilidade são imperativos da cidadania. O não lucro e o interesse colectivo continuam a instigar estas acções que visam:
· A reassunção da dignidade própria;
· A Melhoria da qualidade de vida;
· A reinvindicação do crescimento e a perspectiva do meio ambiente;
· O crescimento qualitativo e de uma política de melhor nível de vida;
· Mudar as relações entre os sexos, as idades e acesso aos bens do conhecimento e da cultura;
· A criação de novos vínculos sociais e solidários, através da solução de problemas de proximidade, não ignorando as grandes questões de justiça que se colocam em Universos mais distantes, através de uma nova forma de estar no mundo;



B - Serviços de proximidade, o que são?
São uma forma organizada de exercer a cidadania responsável pelas cadeias solidárias da cooperação. De encontrar a resposta a problemas comuns.
Os serviços de proximidade baseiam-se nas práticas do quotidiano das populações, nas trocas simbólicas que se tecem na trama diária da vida local, nas aspirações, nos valores e nos desejos, das pessoas que são os directos usuários de bens comuns. Embora se possam apoiar nos recursos familiares não visam criar subordinação no interior da família. Ao contrário visam a criação de emprego, a coesão social, ou a geração de actividades económicas, sociais e culturais com vista ao “liame” social. A criação destes espaços públicos de proximidade são determinados segundo Guerin (2005) na articulação da procura com a oferta. Procedem à revalorização económica, não monetária. Às respostas às necessidades sentidas como comuns. Ao fortalecimento da sociedade civil sem que esta se substitua ao Estado. Ao fomento da atitude solidária e aos senimentos de coesão social. Surgem como oxigénio revitalizador do respirar colectivo. Chanial e Laville (2006) consideram a importância destes movimentos pela participação empenhada dos cidadãos a quem dizem respeito, como favorecedores do desenvolvimento sustentado e do respeito pelo meio ambiente. Trata-se, para França e Laville (2004) de agir no espaço público em matéria de desenolvimento local, visando a economia de sectores, preferencialmente populares, criando uma economia alternativa, que distribua com mais equitatividade. Que supere a tendência à exploração e à violência da “sobre posse” pela “infra posse” de bens, serviços e ou direitos. Uma economia centrada no trabalho e não no capital, que coloque o homem no centro e não considerado como valor de mercadoria. Torná-lo ser instruido, reevindicador dos seus direitos, pertencente a uma comunidade, cujo destino lhe compete tomar em suas mãos. A colectividade é a família, são os amigos, é a população de um território e não apenas sociedade cosmopolita sem rosto.

C - Com que instrumentos e porquê?
Cada vez se coloca, com mais pertinência, este movimento de cidadania para suprir a catástrofe de um capitalismo totalitário, ampliador das desigualdades sociais e de ameaças inéditas que pesam sobre o ambiente natural. O capitalismo asfixiante que se apresentou para maioria dos habitantes do planeta como único horizonte perceptivel, produziu miséria social e degradação, talvez sem retorno, do ambiente. As mudanças e a democraticidade tem de ser radicais nas finalidades e nos meios. Tem que provir de movimentos emancipatórios, pela iguadade, liberdade e respeito. A reabilitação das políticas dos direitos universais, não podem estar apenas consignados a espaços constitucionais. O Estado não pode reencontrar legitimidade, se não integrar no seu seio, as possibilidade de participação dos cidadãos, dos assalariados e consumidores, dos homens livres, religados pelo espírito associativo impregnado da solidariedade democrática. Deve, acima de tudo, favorecer a sua expressão voluntária apoiando estes movimentos de:
1. Homens livres apoiados ou não por correntes políticas diversa que se organizam com produtores associados tendo em vista a satisfação das suas necessidades, para reintegrarem o modelo de produção próprios do sistema capitalista;
2. Pequenos produtores associados que pretendem comprar vender os seus produtos em conjunto;
3. Assalariados que se associam para adquirirem, em conjunto, bens e serviços de consumo, visando ganhos de escala e melhor qualidade;
4. Pequenos produtores e assalariados que se associam para reunir poupanças em fundos rotativos que lhe permitem obter crédito com juros baixos;
5. Pequenos produtores e assalariados que criam associações mútuas de seguros cooperativas de habitação e cultura
6. Gente singular que preconiza o acesso aos bens da cultura e do conhecimento através do movimento associativo.
7. Os que deliberadamente procuram construir pela equidade a justiça e o bem social. Torna enfim, a terra mais habitável.

A EU adopta medidas que se destinam a reforçar esta vertente solidária impossivel de ignorar com vista ao reforço da dimensão local, dos territórios e das estratégias. Estão neste caso:
O livro Branco sobre o cescimento económico, a competitividade e o emprego como nova fonte de emprego local;
A estratégia de Lisboa que tem como objectivo primordial o crescimento económico baseado no desenvolvimento do conhecimento e na competitividade a partir do nível local;
A constituição Europeia (Bolkstein) com projectos de legislação que afectam o desemprego;
A cimeira da Primavera de 22/23 de Março de 2005 que reconheceu a economia solidária como elemento importante das novas políticas de emprego,
Todos estes instrumentos devem favorecer
A Solidariedade, a equidade e a participação
Através da investigação económica e das estratégias políticas,
Da investigação sobre, o diagnóstico e os programas ecológicos e ambientais;
A investigação sobre as metodologias relacionadas com a formação das pessoas e das comunidades, com vista ao desenvolvimento sustentado;
A investigação para o desenvolvimento de quadros legislativos e administrativos adequados;
A competência na área das metodologias para o desenvolvimento, lançamento , organização e gestão de projectos locais;
O Forum global para a globalização da solidariedade.

Todos estes movimentos de intenções, mesmo que sancionados por decretos e reiterados por magnas assembleias, não produzirão os efeitos necessários e urgentes, se a cooperação e a solidariedade não nortearem tais aspirações. Sem o envolvimeno das comunidades de base e dos grupos sociais afectados pelas situações de carência e de injustiça, tal não constituirá uma resposta efectiva aos diferentes problemas, sentidos pelas comunidades e grupos. Os serviços de proximidade, conhecendo as realidades que afectam os seus membros, são um inestimável contributo, a cognição actuante, no sentido da resolução dos problemas que se colocam a cada realidade local Se no centro se não colocar o homem e o seu direito à cidadania. É que as políticas devem ser feitas para os Homens e não os Homens para a política. A mudança de atitude tem que se processar através de uma crescente consciencialização de que é preciso agir, sem demora, local e globalmente. Assumir compromissos através de laços sociais, na construção da TERRA MATRIA. Está nas mãos de cada um em particular e, de todos no geral, a tomada de uma nova consciência de que as crises só são superadas se cada um fizer o que lhe competir pelo seu bem e pelo bem de todos. Na proximidade das acções instrumentais e na construção de afectos e de políticas realistas, movidas pelo sentimento de pertença a uma comunidade de destino, a que os políticos e os decisores, têm que prestar os melhores serviços, se dinamizam estes projectos de mudança. Pelas pessoas, pela natureza por esta nossa Terra “Património comum”, os serviços de proximidade, serão uma das respostas mais esperadas e mais actuantes. Amanhã já pode ser tarde.

PALAVRAS CHAVE: cidadania, responsabilidade, cooperação, solidariedade.

Julho de 2009
Maria da Conceição Couvaneiro

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Sonho Consolador

"Eu levei-te comigo
até ao Mar,
nadei para longe
contigo,
até aos confins do Tempo.

Quando à Terra regressei,
peguei na tua mão
e com ela escrevi na areia
uma palavra.

O vento levou-a,
resposta a perguntas mudas,

a nossa palavra.

Surgida para nós,
solidamente entrançada connosco
nos confins do Tempo."
in Tempo fora do Tempo (1993) de Hede Fortunas

Homenagem a escritora germânica com quem tive o prazer de conviver, dedicando este poema, aos 69 anos, ao amor da sua vida. Um testemunho de Tempo ou lutas intemporais e de Amor Eterno.

domingo, 8 de março de 2009

TEMPO
“ Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao fim.” Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver. Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos. Não importa o nome que damos, o que importa é deixar no passado os momentos da vida que já se acabaram. Foi despedida do trabalho? Terminou uma relação? Deixou a casa dos pais? Partiu para viver em outro país? A amizade tão longamente cultivada desapareceu sem explicações? Você pode passar muito tempo se perguntando porque isso aconteceu. Pode dizer para si mesma que não dará mais um passo enquanto não entender as razões que levaram a certas coisas, que eram tão importantes e sólidas em sua vida, serem subitamente transformadas em pó. Mas tal atitude será um desgaste imenso para todos: seus pais, seu marido ou sua esposa, seus amigos, seus filhos, sua irmã, todos estarão encerrando capítulos, virando a folha, seguindo adiante, e todos sofrerão ao ver que você está parado. Ninguém pode estar ao mesmo tempo no presente e no passado, nem mesmo quando tentamos entender as coisas que aconteceram connosco. O que passou não voltará: não podemos ser eternos meninos, adolescentes tardios, filhos culpados ou rancorosos com os pais, amantes que revivem noite e dia uma ligação com quem já foi embora e não tem a menor intenção de voltar. As coisas passam, e o melhor que fazemos é deixar que elas realmente possam ir embora. Por isso é tão importante [por mais doloroso que seja!] destruir recordações, mudar de casa, dar muitas coisas para orfanatos, vender ou doar livros que tem. Tudo neste mundo visível é uma manifestação do mundo invisível, do que está acontecendo em nosso coração... ...e o desfazer-se de certas lembranças significa abrir espaço para que outras tomem o seu lugar. Deixar ir embora. Soltar. Desprender-se. Ninguém está jogando nesta vida com cartas marcadas, portanto às vezes ganhamos, e às vezes perdemos. Não espere que devolvam algo, não espere que reconheçam seu esforço, que descubram seu génio, que entendam seu amor. Pare de ligar sua televisão emocional e assistir sempre ao mesmo programa, que mostra como você sofreu com determinada perda: isso a estará apenas envenenando, e nada mais. Não há nada mais perigoso que rompimentos amorosos que não são aceitos, promessas de emprego que não tem data marcada para começar, decisões que sempre são adiadas em nome do “momento ideal”. Antes de começar um capítulo novo, é preciso terminar o antigo: diga a si mesmo que o que passou, jamais voltará. Lembre-se de que houve um tempo em que podia viver sem aquilo, sem aquela pessoa – nada é insubstituível, um hábito não é uma necessidade. Pode parecer óbvio, pode mesmo ser difícil, mas é muito importante. Encerrando ciclos. Não por causa de orgulho, por incapacidade, ou por soberba mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais na sua vida. Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira. Deixe de ser quem era, e se transforme em quem é. Torna-te uma pessoa melhor e assegura-te de que sabes bem quem és tu própria, antes de conheceres alguém e de esperares que ele veja quem tu és... E lembra-te: “Tudo o que chega, chega sempre por alguma razão.” [Fernando Pessoa] ”

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Observar, compreender, para melhor actuar.

Visita ao Residoso

Dia 7, ou a mítica mensagem bíblica...Sete, setenta vezes sete...ou sete vezes nada...

Preparamos-nos para partilhar um tempo, o tempo especial daqueles que consideramos, especiais, diferentes. Tempo que é comum, porque é registado, simultâneo ao nosso, no " maldito relógio". Tempo que escapa à racionalidade (normativa) como se pretendesse, na sua desintegração, contrariar, recusar, o sentido comum, no aleatório e imponderável de cada momento, no segredo de cada ser. Pretendemos compreender a incógnita que se esconde no "non sens". Descodificar, integrar, outras realidades, aquilo que julgamos ser o Universo dos vazios, (as demências ou a ausência de lógica). Vamos experienciar outras vivências... conhecer outros, em outros espaços e em contextos que não conseguimos facilmente decifrar. Outros EUS, outras percepções das realidades.

Pretendemos procurar a história, o sentido da vida que somos tentados a julgar "sem sentido", face aos nossos sentidos. A sua capacidade ou não, de percepcionarem o real. Vamos partir à descoberta de um mundo que nos escapa, nos desafia e inquieta.... Tentar perceber o que distingue o exótico, da norma. Sentir o que constituirá o seu Universo, a sua interpretação do mundo. Lançar-lhe um olhar de humanidade, face a uma humanidade quase irreconhecível.

Vamos realizar "trabalho de campo". Fazer observação simples, participante ou não participante.

"A observação participante, que muitas vezes é também designada por trabalho de campo, caracteriza-se pela “inserção do observador no grupo observado. Se o investigador apenas se integra no grupo a partir do momento em que se inicia o processo de investigação, falamos de observação-participação. É a situação do etnólogo que vai viver uns tempos com a "tribo" que vai estudar.
Se, pelo contrário, o observador faz parte integrante de um grupo e aproveita essa situação para o observar, estamos numa situação de participação-observação. É o caso do professor de Sociologia que investiga na escola onde exerce a docência. [Ou do crente religioso que aproveita o seu convívio com outros crentes e a sua participação em actividades religiosas para estudar o fenómeno religioso.]
A observação-participação tanto pode ser uma participação distanciada e ligeira (caso de uma reportagem sobre uma conferência ou sobre outra qualquer prática social; ou da observação presencial de aulas), como uma participação mais profunda e mais integrada (como é o caso dos etnólogos que, ao estudarem sociedades primitivas, nelas se integram durante meses). Na participação-observação há a dificuldade acrescida da pertença íntima ao grupo social condicionar bastante a objectividade necessária ao processo investigativo.”
José Vargas, Sociologia, Porto Editora, 2002, pp. 119-120.

Vamos conhecer, com os nossos mecanismos racionais o que consideramos ser a irracionalidade e sentir com os nossos afectos, para podermos actuar melhor.

C.C.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

A Relatividade do Tempo

Ao pesquisar informação sobre o Tempo deparei-me com um pensamento de Rúben Alves com o qual me identifico e que me fez reflectir sobre este tema: “O tempo pode ser medido com as batidas do relógio ou medido com as batidas do coração” .
Diariamente, somos bombardeados com diversas expressões sobre o tempo: “não tenho tempo”, “os dias deviam ter mais de 24h”e ”já passou uma hora e parece que só estamos juntos há 5 minutos”, que nos dão uma noção da subjectividade do tempo e outras como “ó tempo volta para trás” e “no meu tempo era tudo muito diferente e melhor” que revelam um valor de tempo como sinónimo de saudade, isto é, que atribuem uma significação ao tempo.
Foi com base nestas premissas que decidi elaborar uma reflexão acerca de como o tempo invariavelmente marca as nossas vidas e do modo como escolhemos viver esse tempo.
A noção de temporalidade do tempo (passo o pleonasmo) tem muito que se lhe diga.
Considero mesmo que, em traços gerais, o tempo pode ser vivido de duas formas distintas: o tempo como marca firme de finitude da vida humana, do envelhecimento humano e o tempo do amor, do encontro, o tempo que vem dar significação ao viver.
O primeiro, tal como Ruben Alves refere, “pode ser medido com as batidas do relógio”. É o tempo do stress, da correria, da própria luta inglória contra o tempo em que constantemente nos sentimos vítimas do tempo e o sentimos como um inimigo pois andamos sempre atrasados. É nesta dimensão do tempo que vivemos a maior parte das horas do nosso dia-a-dia, pelo facto de estarmos numa sociedade exigente e com tantos apelos aos quais se torna difícil resistir.
Ninguém consegue controlar este tic-tac mas podemos e devemos escolher a forma como queremos vivenciar este tempo que uma vez acabado não pode ser revivido.
Facilmente esquecemos que a temporalidade é constitutiva da existência humana e isto pode originar arrependimentos, amarguras e desgostos.
Qual é então o segredo desta valorização do tempo se as horas, os minutos e os segundos são rigorosamente iguais para nós que os percebemos, umas vezes como rápidos demais e outras como demasiado demorados?
É a esta pergunta que os idosos, por excelência, nos conseguem responder pois a sua vida já sofreu muitas mutações e a experiência que adquiriram ao longo dos anos já lhes permitiu reflectir amplamente sobre o assunto.
É curioso ver que todos somos filhos do tempo, que vivemos controlados pelo relógio que teimamos em manter no pulso para melhor gerirmos o nosso tempo mas que para esta faixa etária o mesmo adquiriu um sabor especial.
É comum vermos um idoso referir expressões como “vou dar-te este presente porque para o ano posso já não estar cá”; “digo sempre à minha família o quanto a amo pois não sei se amanhã cá estarei para o poder fazer”, entre outras que nos fazem compreender que existe por parte dele um grande respeito pelo tempo.
Nós vivemos a vida pensando que seremos imortais, pensamos na morte mas imaginamo-la como algo distante e impessoal mas talvez essa valorização do tempo seja uma das muitas coisas que podemos aprender com os idosos.
Estes já adquiriram a vivência da sabedoria de perder tempo com o que é essencial na vida, já conseguiram dar um sentido ao tempo mas já não têm o tempo que desejariam para poder usufruir desta sabedoria.
Saint Exupéry, no seu livro “O Principezinho”, fala-nos disso mesmo quando a raposa se dirige ao pequeno príncipe e lhe diz: “foi o tempo que perdeste com a tua rosa que a tornou tão importante” e incita-nos assim a descobrir o segredo do que é realmente importante na vida.
Temos portanto a fundamental tarefa de amar a vida marcada pelo tempo e de a aceitar e acolher seja aos 3, aos 18, aos 35 ou aos 80 ou mais anos de idade.
O tempo do encontro torna-se terapêutico quando optamos por vivenciá-lo como o tempo que abraça a vida, como um caso de amor, de uma experiência profunda de paz, de reencontro e de reconciliação consigo mesmo, com os outros e com o transcendente. Cabe a cada um de nós, como profissionais da saúde, fazer a diferença, humanizando e sendo humanizados. Assim agindo tornaremo-nos mestres do tempo pois, mais do que acrescentar anos à vida, estaremos acrescentando vida aos anos, ou seja, estaremos a viver continuamente em estado de graça.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

O tempo...

Ah!... sempre o tempo que se esvai e esfuma. Que demora a passar sobretudo quando se é jovem e se quer ser grande. Tempo -eternidade- quando se busca e prossegue um sonho que, por mais que se anseie, tarda a concretizar-se. Tempo que faz doer na hora da desilusão... nesse vazio do Ser. Tempo que se retoma na paixão efémera mas estonteante, grito de absoluto, que se volatiliza. Tempo que queima, esgota, sulca a cartografia de cada existência, deixando registos de memórias, sonhos por cumprir...promessas de eternidade. Tempo que se prolonga quando já pouco faz sentido....Tempo que se expande no sentido d infinito, quando se ultraassam a fronteiras do efémero. Tempo de SER procurando não SER, em transcendências de além....
Tempo, tempo o meu e o vosso que partilhamos em construções comuns que sempre se descontróem mas reedificam marcadas pelo "maldito relógio". Ah... são 17 Horas e 30...já são horas de acabar.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Da Terceira Idade...

"Creio que se pode traçar uma fronteira muito precisa entre a juventude e a velhice. A juventude acaba quando termina o egoísmo, a velhice começa com a vida para os outros. Ou seja: os jovens têm muito prazer e muita dor com as suas vidas, porque eles a vivem só para eles. Por isso todos os desejos e quedas são importantes, todas as alegrias e dores são vividas plenamente, e alguns, quando não vêem os seus desejos cumpridos, desperdiçam toda uma vida. Isso é a juventude. Mas para a maior parte das pessoas vem o tempo em que tudo se modifica, em que vivem mais para os outros, não por virtude, mas porque é assim. A maior parte constitui família. Pensa-se menos em nós próprios e nos nossos desejos quando se tem filhos. Outros perdem o egoísmo num escritório, na política, na arte ou na ciência. A juventude quer brincar, os adultos trabalhar.

Não há quem se case para ter filhos, mas quando chegam, modificamo-nos, e acabamos por perceber que tudo aconteceu por eles. Da mesma forma, a juventude gosta de falar na morte, mas nunca pensa nela; com os velhos acontece o contrário. Os jovens acreditam ser eternos e centram todos os desejos e pensamentos sobre si próprios. Os velhos já perceberam que o fim vai chegar e que tudo o que se tem e se faz para si próprio acaba por cair num buraco e de nada valeu. Para isso necessita de uma outra eternidade e de acreditar que não trabalhou apenas para os vermes. Por isso existe a mulher e os filhos, o negócio ou o escritório e a pátria, para que se tenha a noção de que o esforço diário e as calamidades têm um sentido. Assim, uma pessoa é mais feliz quando vive para mais alguém, e não para si só. Mas os velhos não devem fazer disso um heroísmo, que não é. Do mais irrequieto jovem resulta o melhor dos velhos, o que não é verdade para aqueles que já na escola agiam como velhos..."
Hermann Hesse, in "Gertrud"