terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

A Relatividade do Tempo

Ao pesquisar informação sobre o Tempo deparei-me com um pensamento de Rúben Alves com o qual me identifico e que me fez reflectir sobre este tema: “O tempo pode ser medido com as batidas do relógio ou medido com as batidas do coração” .
Diariamente, somos bombardeados com diversas expressões sobre o tempo: “não tenho tempo”, “os dias deviam ter mais de 24h”e ”já passou uma hora e parece que só estamos juntos há 5 minutos”, que nos dão uma noção da subjectividade do tempo e outras como “ó tempo volta para trás” e “no meu tempo era tudo muito diferente e melhor” que revelam um valor de tempo como sinónimo de saudade, isto é, que atribuem uma significação ao tempo.
Foi com base nestas premissas que decidi elaborar uma reflexão acerca de como o tempo invariavelmente marca as nossas vidas e do modo como escolhemos viver esse tempo.
A noção de temporalidade do tempo (passo o pleonasmo) tem muito que se lhe diga.
Considero mesmo que, em traços gerais, o tempo pode ser vivido de duas formas distintas: o tempo como marca firme de finitude da vida humana, do envelhecimento humano e o tempo do amor, do encontro, o tempo que vem dar significação ao viver.
O primeiro, tal como Ruben Alves refere, “pode ser medido com as batidas do relógio”. É o tempo do stress, da correria, da própria luta inglória contra o tempo em que constantemente nos sentimos vítimas do tempo e o sentimos como um inimigo pois andamos sempre atrasados. É nesta dimensão do tempo que vivemos a maior parte das horas do nosso dia-a-dia, pelo facto de estarmos numa sociedade exigente e com tantos apelos aos quais se torna difícil resistir.
Ninguém consegue controlar este tic-tac mas podemos e devemos escolher a forma como queremos vivenciar este tempo que uma vez acabado não pode ser revivido.
Facilmente esquecemos que a temporalidade é constitutiva da existência humana e isto pode originar arrependimentos, amarguras e desgostos.
Qual é então o segredo desta valorização do tempo se as horas, os minutos e os segundos são rigorosamente iguais para nós que os percebemos, umas vezes como rápidos demais e outras como demasiado demorados?
É a esta pergunta que os idosos, por excelência, nos conseguem responder pois a sua vida já sofreu muitas mutações e a experiência que adquiriram ao longo dos anos já lhes permitiu reflectir amplamente sobre o assunto.
É curioso ver que todos somos filhos do tempo, que vivemos controlados pelo relógio que teimamos em manter no pulso para melhor gerirmos o nosso tempo mas que para esta faixa etária o mesmo adquiriu um sabor especial.
É comum vermos um idoso referir expressões como “vou dar-te este presente porque para o ano posso já não estar cá”; “digo sempre à minha família o quanto a amo pois não sei se amanhã cá estarei para o poder fazer”, entre outras que nos fazem compreender que existe por parte dele um grande respeito pelo tempo.
Nós vivemos a vida pensando que seremos imortais, pensamos na morte mas imaginamo-la como algo distante e impessoal mas talvez essa valorização do tempo seja uma das muitas coisas que podemos aprender com os idosos.
Estes já adquiriram a vivência da sabedoria de perder tempo com o que é essencial na vida, já conseguiram dar um sentido ao tempo mas já não têm o tempo que desejariam para poder usufruir desta sabedoria.
Saint Exupéry, no seu livro “O Principezinho”, fala-nos disso mesmo quando a raposa se dirige ao pequeno príncipe e lhe diz: “foi o tempo que perdeste com a tua rosa que a tornou tão importante” e incita-nos assim a descobrir o segredo do que é realmente importante na vida.
Temos portanto a fundamental tarefa de amar a vida marcada pelo tempo e de a aceitar e acolher seja aos 3, aos 18, aos 35 ou aos 80 ou mais anos de idade.
O tempo do encontro torna-se terapêutico quando optamos por vivenciá-lo como o tempo que abraça a vida, como um caso de amor, de uma experiência profunda de paz, de reencontro e de reconciliação consigo mesmo, com os outros e com o transcendente. Cabe a cada um de nós, como profissionais da saúde, fazer a diferença, humanizando e sendo humanizados. Assim agindo tornaremo-nos mestres do tempo pois, mais do que acrescentar anos à vida, estaremos acrescentando vida aos anos, ou seja, estaremos a viver continuamente em estado de graça.

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